Fátima
HISTÓRIA DAS APARIÇÕES.
AS
APARIÇÕES DO ANJO
Na
primavera de 1916, três pastorinhos tinham levado o seu rebanho de
ovelhas para o pasto perto da aldeia de Fátima. Foi como qualquer
dia, como os outros na vida de Lúcia com 9 anos, seu primo Francisco
com 8 anos e sua irmãzinha Jacinta de 6 anos.
Transcrevemos em seguida as
palavras exactas de Lúcia sobre as três aparições do Anjo, estando
presentes apenas ela e os seus dois priminhos, Francisco e Jacinta.

1ª Aparição do Anjo.
Conta a
Irmã Lúcia:
«As
datas não posso precisá-las com certeza, porque, nesse tempo, eu não
sabia ainda contar os anos, nem os meses, nem mesmo os dias da
semana. Parece-me, no entanto, que deveu ser na Primavera de 1916
que o Anjo nos apareceu a primeira vez na nossa Loca do Cabeço...
subimos a encosta em procura dum abrigo e como foi, depois de aí
merendar e rezar, que começamos a ver, a alguma distância, sobre as
árvores que se estendiam em direcção ao Nascente, uma luz mais
branca que a neve, com a forma dum jovem, transparente, mais
brilhante que um cristal atravessado pelos raios do Sol. À medida
que se aproximava, íamos-lhe distinguindo as feições. Estávamos
surpreendidos e meios absortos. Não dizíamos palavra.
Ao
chegar junto de nós, disse:
–
Não temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo.
E
ajoelhando em terra, curvou a fronte até ao chão. Levados por um
movimento sobrenatural imitamo-lo e repetimos as palavras que lhe
ouvimos pronunciar:
– Meu
Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que
não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.
Depois
de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse:
– Orai assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das
vossas súplicas.
E
desapareceu.
A
atmosfera do sobrenatural que nos envolveu era tão intensa, que
quase não nos dávamos conta da própria existência, por um grande
espaço de tempo, permanecendo na posição em que nos tinha deixado,
repetindo sempre a mesma oração.
A
presença de Deus sentia-se tão intensa e íntima que nem mesmo entre
nós nos atrevíamos a falar.»
2ª Aparição do anjo.
«A
segunda deveu ser no pino do Verão, (Junho) nesses dias de maior
calor, em que íamos com (os) rebanhos para casa, no meio da
manhã, para os tornar a abrir só à tardinha. Fomos, pois passar as
horas da sesta à sombra das árvores que cercavam o poço já várias
vezes mencionado.
De
repente, vimos o mesmo Anjo junto de nós.
– Que fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm
sobre vós desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao
Altíssimo orações e sacrifícios.
– Como
nos havemos de sacrificar? – perguntei.
– De tudo que puderdes, oferecei um sacrifício em ato de reparação
pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos
pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa Pátria, a paz. Eu sou o Anjo
da sua guarda, o Anjo de Portugal.
Sobretudo, aceitai e suportai com submissão o sofrimento que o
Senhor vos enviar.
Estas
palavras do Anjo gravaram-se em nosso espírito, como uma luz que nos
fazia compreender quem era Deus, como nos amava e queria ser amado;
o valor do sacrifício, e como o sacrifício Lhe era agradável,
como por atenção ao sacrifício oferecido, convertia os pecadores.
Por
isso, desde esse momento, começamos a oferecer ao Senhor tudo que
nos mortificava, mas sem discorrermos a procurar outras
mortificações ou penitências, excepto a de passarmos horas seguidas
prostrados por terra, repetindo a oração que o Anjo nos tinha
ensinado.»
3ª Aparição do anjo.
«A
terceira aparição parece-me que deveu ser em Outubro ou fins de
Setembro, porque já não íamos passar as horas da sesta a casa.
Passamos da Prégueira (é um pequeno olival pertencente à meus pais)
para a Lapa, dando a volta à encosta do monte pelo lado de Aljustrel
e Casa Velha.
Rezamos
aí o terço e a oração que na primeira aparição o Anjo nos tinha
ensinado. Estando, pois, aí, apareceu-nos pela terceira vez,
trazendo na mão um cálice e sobre ele uma Hóstia, da qual caíam,
dentro do cálice, algumas gotas de sangue. Deixando o cálice e a
Hóstia suspensos no ar, prostrou-se em terra e repetiu três vezes a
oração:
– Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, adoro-Vos
profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e
Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra,
em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele
mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo
Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos
pobres pecadores.
Depois,
levantando-se, tomou de novo na mão o cálice e a Hóstia e deu-me a
Hóstia a mim e o que continha o cálice deu-o a beber à Jacinta e ao
Francisco, dizendo, ao mesmo tempo:
– Tomai e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente
ultrajado pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolai o
vosso Deus.
De novo
se prostrou em terra e repetiu conosco mais três vezes a mesma
oração:
– Santíssima Trindade... etc.
E
desapareceu.
Levados
pela força do sobrenatural que nos envolvia, imitávamos o Anjo em
tudo, isto é, prostrando-nos como Ele e repetindo as orações que Ele
dizia. A força da presença de Deus era tão intensa que nos absorvia
e aniquilava quase por completo. Parecia privar-nos até do uso dos
sentidos corporais por um grande espaço de tempo.
Nesses
dias, fazíamos as ações materiais como que levados por esse mesmo
ser sobrenatural que a isso nos impelia. A paz e felicidade que
sentíamos era grande, mas só íntima, completamente concentrada a
alma em Deus. O abatimento físico, que nos prostrava, também era
grande.»
Citamos
apenas umas palavras de Lúcia:
Na
terceira aparição, a presença do sobrenatural foi ainda muitíssimo
mais intensa. Por vários dias, nem mesmo o Francisco se atrevia a
falar. Dizia depois:
– Gosto
muito de ver o Anjo; mas o pior é que, depois, não somos capazes de
nada. Eu nem andar podia, não sei o que tinha! Apesar de tudo, foi
ele quem se deu conta, depois da terceira aparição do Anjo, das
proximidades da noite. Foi quem disso nos advertiu e quem pensou em
conduzir o rebanho para casa.
Passados os primeiros dias e recuperado o estado normal, perguntou o
Francisco:
– O
Anjo, a ti, deu-te a Sagrada Comunhão; mas a mim e à Jacinta, que
foi o que Ele nos deu?
– Foi
também a Sagrada Comunhão? – respondeu a Jacinta, numa felicidade
indizível. – Não vês que era o Sangue que caía da Hóstia?
– Eu
sentia que Deus estava em mim, mas não sabia como era! E
prostrando-se por terra, permaneceu por largo tempo, com a sua Irmã,
repetindo a oração do Anjo: “Santíssima Trindade...”, etc.
AS APARIÇÕES DE NOSSA
SENHORA
Os
povos envolvidos em guerra (1ª guerra mundial 1914-1918) espalhavam
a morte, medo e a dor. Portugal atravessava uma grave crise, almas
desorientadas envolviam-se na descrença, corações com fé suplicavam
paz e a salvação para o mundo. Foi nesta atmosfera humana que
brilhou o belo e risonho dia 13 de Maio
de 1917.

Neste
dia as três crianças apascentavam um pequeno rebanho na Cova da
Iria, freguesia de Fátima, conselho de Vila Nova de Ourém, hoje
diocese de Leiria-Fátima. Chamavam-se Lúcia de Jesus, já com 10
anos, e Francisco e Jacinta Marto, seus primos, de 9 e 7 anos.
1ª APARIÇÃO – 13 de Maio de
1917.
Lúcia
descreve com exactidão o primeiro encontro com a Virgem da
carrasqueira:
«Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco, no cimo da encosta
da Cova da Iria a fazer uma paredezita em volta de uma moita, vimos
de repente como que um relâmpago.
– É
melhor irmos embora para casa. Disse a meus primos:
– Estão
a fazer relâmpagos e pode vir trovoada.
E
começamos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à
estrada. Ao chegar mais ou menos a meio da encosta quase junto de
uma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e dado
alguns passos mais adiante vimos sobre uma carrasqueira uma Senhora
vestida toda de branco mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais
clara e intensa que um copo de água cristalina atravessado pelos
raios do sol mais ardente.
Paramos
surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto que ficávamos
dentro da luz que a cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e
meio, mais ou menos.
Então
Nossa Senhora disse-nos:
– Não
tenhais medo, hei não vos faço mal.
– De
onde é Vossemecê? Lhe perguntei.
– Sou
do Céu!
– E que
é que Vossemecê me quer?
– Vim
para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia e a esta
mesma hora, depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei
aqui ainda uma sétima vez.
– E eu
também vou para o Céu?
– Sim,
vais!
– E a
Jacinta?
–
Também.
– E o
Francisco?
–
Também, mas tem que rezar muitos terços...
Quereis
oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que Ele
quiser enviar-vos, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é
ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim
queremos!
– Ides,
pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso
conforto.
Foi ao
pronunciar estas palavras (a graça de Deus, etc...) que abriu pela
primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como que
reflexo que delas expedia, que penetrando-nos no peito e no mais
íntimo da alma, fazia-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa
luz; mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos.
Então
por um impulso íntimo, também comunicado, caímos de joelhos e
repetíamos intimamente: "Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro, Meu
Deus, Meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento."
Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:
– Rezem
o terço todos os dias, para alcançarem a paz do mundo e o fim da
guerra.
Em
seguida começou a elevar-se serenamente subindo em dirceção ao
nascente até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A
circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros,
motivo porque algumas vezes dissemos que vimos abrir-se o Céu.»
2ª APARIÇÃO – 13 de Junho de
1917.
«Aí
pelas 11 horas saí de casa, passei por casa de meus tios onde a
Jacinta e o Francisco me esperavam e lá vamos para a Cova da Iria à
espera do momento desejado... Depois de rezar o terço com a Jacinta
e Francisco e mais pessoas que estavam presentes (Conforme contou o
Sr. Inácio António Marques, assistiram 40 pessoas!), vimos de novo o
reflexo da luz que se aproximava (a que chamávamos relâmpago) e em
seguida Nossa Senhora sobre a carrasqueira, em tudo igual a Maio.
–
Vossemecê que me quer? Perguntei.
– Quero
que venhais aqui no dia 13 do mês que vem, que rezeis o terço todos
os dias e que aprendam a ler. Depois direi o que quero.
– Pedi
a cura de um doente.
– Se,
se converter, curar-se-á durante o ano.
–
Queria Pedir-lhe para nos levar para o Céu.
– Sim,
a Jacinta e o Francisco levo-os em breve, mas tu ficas cá mais algum
tempo. Jesus quer servir-Se de ti para me fazer conhecer e amar. Ele
quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração. A quem
a aceita, prometer-lhe-ei a salvação e estas almas serão amadas de
Deus, como flores colocadas por Mim para enfeitar o Seu Trono.
– Fico
cá sozinha? Perguntei com pena.
– Não,
filha! E tu sofres muito! Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O Meu
Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá
até Deus.
Foi no
momento em que disse estes palavras, que abriu as mãos e nos
comunicou, pela segunda vez, o reflexo dessa luz imensa. Nela nos
víamos como que submergidos em Deus.
A
Jacinta e o Francisco parecia estarem na parte dessa luz que se
elevava para o Céu, e eu, na que se espargia sobre a terra. À frente
da palma da mão direita de Nossa Senhora estava um Coração cercado
de espinhos que parecia estarem-Lhe cravados. Compreendemos que era
o Imaculado Coração de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade
que queria reparação.
Eis ao
que nos referíamos quando dizíamos que Nossa Senhora nos tinha
revelado um segredo em Junho. Nossa Senhora não nos mandou ainda
desta vez guardar segredo, mas sentíamos que Deus a isso nos movia.»
3ª APARIÇÃO – 13 de Julho de
1917.
Escreve
a Irmã Lúcia
«Momentos depois de termos chegado à Cova da Iria, junto da
carrasqueira, entre numerosa multidão de povo, estando a rezar o
terço, vimos o reflexo da costumada luz e em seguida Nossa Senhora
sobre a carrasqueira.
–
Vossemecê que me quer? Perguntei.
– Quero
que venham aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem o rezar o
terço todos os dias, em honra de Nossa Senhora do Rosário para obter
a paz do mundo e o fim da guerra, porque só ela Lhes poderá valer.
–
Queria pedir-Lhe para nos dizer quem é, para fazer um milagre com
que todos acreditem que Vossemecê nos aparece.
– Continuem a vir aqui todos os meses, em Outubro direi quem sou, o
que quero, e farei um milagre que todos hão de ver para acreditar.
Aqui
fiz alguns pedidos, que não recordo bem quais foram.
O que
me lembro é que Nossa Senhora disse que era preciso rezar o terço
para alcançar as graças durante o ano. E continuou:
– Sacrificai-vos pelos pecadores, e dizei muitas vezes, em especial
sempre que fizerdes algum sacrifício: “O Jesus, é por vosso amor,
pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos
contra o Imaculado Coração de Maria.”»
4ª APARIÇÃO – 19 de Agosto
de 1917.
A Aparição foi no domingo,
em 19 de Agosto de 1917 ao cair da tarde..
Andando com as ovelhas na
companhia de Francisco e seu irmão João, num lugar chamado Valinhos
e sentido que alguma coisa de sobrenatural se aproximava e nos
envolvia, suspeitando que Nossa Senhora nos viesse a aparecer e
tendo pena que a Jacinta ficasse sem A ver, pedimos a seu irmão João
que a fosse chamar. Como ele não queria ir, ofereci-lhe para isso
dois vinténs e lá foi a correr.
Entretanto, vi com o
Francisco, o reflexo da luz a que chamávamos relâmpago; e chegada a
Jacinta, vimos Nossa Senhora sobre uma carrasqueira.
– Que é que Vossemecê me
quer?
– Quero que continueis a
ir à Cova da Iria no dia 13, que continueis a rezar o terço todos os
dias. No último mês farei o milagre para que todos acreditem.
– Que é que Vossemecê quer
que se faça ao dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?
– Façam dois andores: um,
leva-lo tu com a Jacinta e mais duas meninas vestidas de branco; o
outro que o leve o Francisco com mais três meninos. O dinheiro dos
andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário e o que sobrar é
para a ajuda duma capela que hão de mandar fazer.
– Queria pedir-lhe a cura
de alguns doentes.
– Sim, alguns curarei
durante o ano.
E tomando um aspecto mais
triste:
– Rezai, rezai muito e
fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o
inferno, por não haver quem se sacrifique e peça por elas.
E como de costume, começou
a elevar-se em direcção ao nascente.
A Aparição nos Valinhos
foi para o Francisco de dobrada alegria. Sentia-se torturado pelo
receio de que Ela não voltasse. Depois dizia:
– De certo não nos
apareceu no dia 13 para não ir a casa do Sr. Administrador, talvez
por ele ser tão mau.
Em seguida, como a irmã
disse que queria ficar ali o resto da tarde:
– Não! Tu tens que ir
embora, porque a mãe hoje não te deixou vir com as ovelhas.
E para animar, foi
acompanhá-la à casa.»
5ª APARIÇÃO – 13 de Setembro
de 1917.
«Dia 13 de Setembro de
1917. Ao aproximar-se a hora, lá fui com a Jacinta e o Francisco,
entre numerosas pessoas que a muito custo nos deixavam andar...
Chegamos por fim à Cova da
Iria, junto da carrasqueira, e começamos a rezar o terço com o povo.
Pouco depois vimos o reflexo da luz e a seguir Nossa Senhora sobre
azinheira.
– Continuem a rezar o
terço, para alcançarem o fim da guerra. Em Outubro virá também Nosso
Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo, São José com o Menino
Jesus para abençoarem o mundo. Deus está contente com os vossos
sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda. Trazei-a só
durante o dia.
– Têm-me pedido para Lhe
pedir muitas coisas, a cura de alguns doentes, dum surdo-mudo.
– Sim, alguns curarei;
outros não. Em Outubro farei o milagre para que todos acreditem.
E começando a elevar-se,
desapareceu como de costume.»
6ª APARIÇÃO – 13 de Outubro
de 1917.
Conta Irmã Lúcia:
«Tinha-se espalhado o
boato que as autoridades haviam decidido fazer explodir uma bomba
junto de nós, no momento da aparição. Não concebi, com isso, medo
algum, e falando a meus primos, dissemos:
– Mas que bom, se nos for
concebida a graça de subir dali com Nossa Senhora para o Céu!
No entanto meus pais
assustaram-se e pela primeira vez quiseram acompanhar-me, dizendo:
– Se a minha filha vai
morrer, eu quero morrer a seu lado.
Meu pai levou-me então
pela mão até o local das aparições, mas desde o momento da aparição
não o voltei mais a ver até que me encontrei à noite no seio da
família.
Pelo caminho as cenas do
mês passado, porém mais numerosas e comovedoras. Nem a lamaceira dos
caminhos impedia essa gente de se ajoelhar na atitude mais humilde e
suplicante.
Chegados à Cova da Iria
junto da carrasqueira, levada por um movimento interior, pedi ao
povo que fechasse os guarda-chuvas para rezarmos o terço. Pouco
depois vimos o reflexo da luz e em seguida Nossa Senhora sobre a
carrasqueira.
– Que é que Vossemecê
quer?
– Quero dizer-te que façam
aqui uma capela em minha honra.
“Sou a Senhora do
Rosário”. Que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A
guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas.
– Eu tinha muitas coisas
para lhe pedir. Se curava uns doentes e se convertia uns pecadores,
etc.
Respondeu-me dizendo:
– Uns sim, outros não. É
preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados.
E tomando um aspecto
triste:
– Não
ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido.»

Despedindo-se, a Senhora abriu as mãos, como das outras vezes, e o
brilho que delas saía subia até onde devia estar o sol. A multidão
viu as nuvens se abrirem e o sol aparecer entre elas, no azul do
céu, como um disco luminoso. Muitos ouviram Lúcia gritar:
– Olhem para
o sol!
Porém, ela
estava em êxtase e não se recorda de ter dito isso, pois estava
totalmente absorta em outras visões que se sucederam...
Na cova da
Iria 70.000 pessoas esperavam durante 4 horas, à chuva, molhadas até
aos ossos, em poças de água com cerca de 10cm de profundidade,
aguentando até o frio.
Conta Lúcia:
«Desaparecida Nossa Senhora na imensidade do firmamento, vimos ao
lado do sol São José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco
com um manto azul. São José com o Menino pareciam abençoar o mundo,
pois faziam com as mãos uns gestos em forma de cruz.»
E somente
Lúcia teve a visão seguinte:
«Pouco
depois, desvanecida essa aparição, vi Nosso Senhor e Nossa Senhora
que me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor
parecia abençoar o mundo da mesma forma que São José. Desvaneceu-se
esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora em forma
semelhante a Nossa Senhora do Carmo.»
Enquanto
isso, a multidão presenciava o milagre prometido por Nossa Senhora:
O sol rompia
as nuvens e, bem no zénite, na posição de meio-dia, brilhava como um
disco de prata. Era possível realmente olhar para ele, sem que sua
luz ofuscasse. Isso foi por um instante.
Todos ainda
olhavam para o sol, assombrados, quando ele começou a “dançar”,
segundo a descrição das pessoas: ele começou a girar sobre si mesmo,
como uma bola de fogo, e então parou. Logo voltou a girar, mas
velozmente. Ainda girando, suas bordas ficaram escarlates e
começaram a lançar chamas por todo o céu, e com isso sua luz se
refletia em tudo e em todos, com as diferentes cores do espectro
solar. Ainda girando rapidamente, e espargindo chamas coloridas, por
três vezes o sol pareceu desprender-se do céu e precipitar-se em
ziguezague sobre a multidão.
Muitos
julgavam ser o fim do mundo, e as pessoas se ajoelhavam na lama
pedindo perdão de seus pecados. Houve quem fizesse confissão pública
em altos brados, e alguns dos que haviam ido até a Cova para fazer
troça dos crédulos prostraram-se em terra entre soluços e orações
desajeitadas. O fenómeno durou por uns dez minutos, e depois,
elevando-se em ziguezague, o sol voltou a sua posição normal e
brilhante, ofuscando como o sol comum.
As pessoas
se entreolhavam e diziam:
“Milagre!
Milagre! As crianças tinham razão! Nossa Senhora fez o milagre!
Bendito seja Deus! Bendita seja Nossa Senhora!” Muitos riam, outros
choravam de alegria, e houve quem notasse que suas roupas se haviam
secado subitamente.
7ª Aparição – 15 de Junho de
1921.
Foi o dia 15 de Junho de
1921, viste a minha luta, a indecisão e o arrependimento do sim que
antes tinha dado, a incerteza do que iria encontrar, a resolução de
voltar atrás. O conhecimento do que deixava, e a saudade a
desgarrar-me o coração!
Esse Adeus a tudo, no
desabrochar da juventude onde um belo futuro me sorria na casa da
minha querida Senhora D. Assunção Avelar e outras que me ofereciam,
o carinho maternal com igual afecto, deixar tudo e a casa paterna,
por uma incerteza do que iria encontrar, oprimia-me o coração e
fazia-me pressentir o que nem queria pensar!...
Podia lá ser? Perguntava a
mim mesma. - Não, - digo a minha Mãe que não quero ir e com não
aparecer amanhã em Leiria tudo está resolvido, volto depois para
Lisboa, para Santarém para casa da minha querida Sr. D. Adelaide, ou
para Leiria para as Senhoras Patrício, em qualquer dos sítios estou
muito melhor, posso estudar e conseguir um bom futuro.
Para onde o Sr. Bispo me
quer levar, não sei como será, é com a condição de não voltar mais a
casa, por isso não voltarei mais a ver a família, nem estes lugares
benditos! Cova de Iria, Loca do Cabeço, Valinhos, Poço do Arneiro, a
Igreja onde fica o meu Jesus escondido e onde tantas graças tenho
recebido! O sorriso da minha primeira Comunhão! Vila Nova de Ourém
onde fica a Jacinta, o cemitério onde ficam os restos mortais de meu
querido Pai e Francisco! Nunca mais voltar a pisar esta terra
abençoada, para ir sabe Deus para onde! Sem nem sequer poder
escrever directamente à minha mãe! Impossível, não vou!
E foi entre esta multidão
de pensamentos sombrios que percorri o caminho desde a Igreja de
Fátima, onde de manhãzinha cedo foi para assistir à Santa Missa e
comungar por despedida, até à Cova de Iria.
Aí ajoelhada e debruçada
sobre a pequena grade que resguardava a terra que tinha alimentado a
feliz carrasqueira onde Nossa Senhora pousou os Seus Imaculados pés,
deixei as lágrimas correrem em abundância enquanto que pedia a Nossa
Senhora perdão de não ser capaz de oferecer-Lhe desta vez, este
sacrifício que me parecia superior as minhas forças. Recordava sim,
esse mais belo dia 13 de Maio de 1917,
em que tinha dado o meu “Sim” prometendo aceitar todos os
sacrifícios que Deus quisesse enviar-me. E esta recordação era como
que uma luz no fundo da alma, um escrúpulo que me não dava paz, e me
fazia verter uma torrente de lágrimas.
Nesse momento, bem longe
estava eu de pensar num novo encontro, nem no cumprimento da
promessa: “Voltarei aqui, uma sétima vez”. Tinha tantos mais
dignos do que eu a quem podias manifestar-Te! Mas não é aos filhos
mais pequeninos e necessitados que as mães socorrem em primeiro
lugar? Por certo que, desde o Céu, o Teu maternal olhar me seguia os
passos e no espelho Imenso da Luz que é Deus, viste a luta daquela a
quem prometeste especial protecção. “Eu nunca te deixarei. O meu
Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá
até Deus.”
Assim solícita, mais uma
vez desceste à terra, e foi então que senti a tua mão amiga e
maternal tocar-me no ombro; levantei o olhar e vi-Te, eras Tu, a Mãe
Bendita a dar-me a Mão e a indicar-me o caminho; os Teus lábios
descerraram-se e o doce timbre da tua voz restituiu a luz e a paz à
minha alma.
Disse Nossa Senhora:
– “Aqui estou pela sétima
vez, vai, segue o caminho por onde o Senhor Bispo te quiser levar,
essa é a vontade de Deus.”
Repeti então o meu “Sim”,
agora bem mais consciente do que, o dia
13 de Maio de 1917 e enquanto que de novo Te elevavas ao Céu,
como num relance, passou-me pelo espírito toda a série de maravilhas
que naquele mesmo lugar, havia apenas 4 anos, ali me tinha sido dado
contemplar. Recordei a minha querida Nossa Senhora do Carmo e nesse
momento senti a graça da vocação à vida religiosa e o atractivo pelo
Claustro do Carmelo.
Tomei por protectora a
minha querida Sóror Teresinha do Menino Jesus. Dias depois, por
conselho do Sr. Bispo, tomei por norma a “Obediência” e por lema as
palavras de Nossa Senhora narradas no Evangelho – “Fazei tudo o que
Ele vos disser”.»
8ª Aparição – 10 de Dezembro
de 1925 – á Irmã Lúcia na Espanha.
Dia 10 de Dezembro de
1925, apareceu-lhes a SS. Virgem e ao lado, suspenso em uma nuvem
luminosa, um Menino. A SS. Virgem, pondo-lhe no ombro a mão e
mostrando, ao mesmo tempo, um coração que tinha na outra mão,
cercado de espinhos.
Ao mesmo tempo, disse o
Menino:
– Tem pena do Coração de
tua SS. Mãe que está coberto de espinhos que os homens ingratos a
todos os momentos lhe cravam sem haver quem faça um ato de reparação
para os tirar.
E em seguida disse a SS.
Virgem:
– Olha, minha filha, o Meu
coração cercado de espinhos que os homens ingratos me cravam, com
blasfémias e ingratidões. Tu, ao menos, vê de me consolar e diz que
todos aqueles que durante cinco meses, ao 1º sábado, se confessarem,
recebendo a Sagrada Comunhão, rezarem um Terço e me fizerem 15
minutos de companhia, meditando nos 15 mistérios do Rosário, com o
fim de Me desagravar, eu prometo assistir-lhes, na hora da morte,
com todas as graças necessárias para a salvação dessas almas.
Aparição à Irmã Lúcia em 13 de Junho de 1929
Tuy - Espanha
A Visão da Santíssima
Trindade
Por fim, temos a última
aparição em Tuy.
A Qual abóbada remata e
sintetiza toda a mensagem nessa visão deslumbrante que compendia num
só e único olhar o mistério da Trindade, o sacrifício redentor da
Cruz, o sacrifício eucarístico e a presença e participação singular
de Maria sob a cruz, com o Seu Coração Imaculado em todo este
mistério da salvação do mundo.
Conta Ir.
Lúcia:
– «Eu
tinha pedido e obtido licença das minhas Superioras e Confessor para
fazer a Hora-Santa das 11 à meia-noite, de quintas para
sextas-feiras. Estando uma noite só, ajoelhei-me entre a
balaustrada, no meio da capela, a rezar, prostrada,
as
Orações do Anjo (...). Sentindo-me
cansada, ergui-me e continuei a rezá-las com os braços em cruz. A
única luz era a da lâmpada.
De
repente iluminou-se toda a Capela com uma luz sobrenatural e sobre o
Altar apareceu uma Cruz de luz que chegava até ao tecto. Em uma luz
mais clara via-se, na parte superior da cruz, uma face de homem com
corpo até a cinta, sobre o peito uma pomba também de luz e, pregado
na cruz, o corpo de outro homem. Um pouco abaixo da cinta, suspenso
no ar, via-se um cálice e uma hóstia grande, sobre a qual caíam
algumas gotas de sangue que corriam pelas faces do Crucificado e
duma ferida do peito. Escorregando pela Hóstia, essas gotas caíam
dentro do Cálice. Sob o braço direito da cruz estava Nossa Senhora,
“era Nossa Senhora de Fátima com o Seu Imaculado Coração... na mão
esquerda... sem espada, nem rosas, mas com uma Coroa de espinhos e
chamas...”, com o Seu Imaculado Coração na mão... Sob o braço
esquerdo da cruz, umas letras grandes, como se fossem de água
cristalina que corresse para cima do Altar, formavam estas palavras:
“Graça e Misericórdia”. Compreendi que me era mostrado o mistério da
Santíssima Trindade e recebi luzes sobre este mistério que não me é
permitido revelar.»
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