Dr Azevedo e Alexandrina

SOYEZ LES BIENVENUS SUR LE SITE D'ALEXANDRINA

O DOUTOR DIAS DE AZEVEDO
E A ALEXANDRINA

O Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo não nasceu no nosso Arciprestado, mas por cá realizou obra de mérito. Que outros o considerem seu, e por boas razões, isso não invalida que seja também um pouco nosso.

A sua actuação junto da Alexandrina foi tão empenhada, persistente e duradoura que há quem o coloque ao nível dos padres Pinho e Humberto. Possuidor de conhecimentos teológicos como eles, como eles apoiou a diversos níveis aquela que adoptou como sua madrinha[1]. Além de tudo o mais, pôs o seu nome e o seu saber médico ao serviço da constatação objectiva do que a Medicina podia afirmar que, nela, ultrapassava as leis da simples natureza. Se não publicou livros sobre a Alexandrina, defendeu-a com numerosas e oportunas cartas enviadas a vários destinatários, nas páginas dos jornais e criou o importante Boletim Mensal « Alexandrina Maria da Costa, a Doente de Balasar » e redigiu-o desde Julho de 1957 a Agosto de 1970. No Processo Diocesano, foi uma das principais testemunhas[2].

Os opositores da Beata continuam a reclamar documentos. Esses documentos de rigor científico e com a assinatura de médicos competentes existem sobretudo graças a ele.

Esboço biográfico

O Dr. Dias de Azevedo nasceu na vila de Ribeirão, Vila Nova de Famalicão, em 21/09/1894, e aí faleceu a 20/12/1971. No número de Janeiro de 1960 do Boletim Mensal, evocava ele assim a sua adolescência e juventude:

« Fui estudar, tendo onze anos de idade, para os Seminários de Braga e, depois de feito aí o Curso Teológico, fui convidado por quem de direito a ir formar-me na Universidade Gregoriana, agradecendo, mas declinando o convite. »

Este convite significa com certeza que dera mostras de real capacidade intelectual.

Ensinou depois o Dr. Dias de Azevedo no Colégio de Ermesinde; paralelamente, dedicava-se a actividades de animação religiosa. Mas voltemos ao seu relato autobiográfico :

« Em seguida fui leccionar e resolvi simultaneamente repetir nos Liceus os exames do curso secundário. Após esses exames, matriculei-me na Faculdade de Medicina, fazendo esse curso no tempo normal de seis anos e leccionando sempre. Defendida depois a tese de doutoramento, que nesse tempo era facultativa, embora convidado por pessoas ilustres a ficar a trabalhar no Porto, vim para Ribeirão, minha terra natal, onde há 35 anos venho exercendo clínica. (…) »

Inicia de facto a sua actividade em 1924.

Um catedrático veio a chamar-lhe «Augusto na medicina»; o Padre Humberto declarou-o « primus inter primos », primeiro entre os primeiros.

Apesar de ser pai de 14 filhos, dadas as dificuldades económicas da população, dedicava dois dias semanais a consultas gratuitas para os mais indigentes.

« Homem de acção, foi fundador ou animador de várias instituições de prevenção social, pugnando por elas quer na sua terra natal, quer em vilas e cidades. » « Foi chamado a usar da palavra em congressos religiosos de carácter nacional, assembleias paroquiais, permanecendo os seus discursos quer nas respectivas actas, quer em separatas. »[3]

Os primeiros contactos com a Alexandrina

No citado número do Boletim Mensal, continua este médico :

« Exerci clínica uns dezassete anos sem conhecer a Alexandrina, mas, em Fradelos, ao aconselhar esta ou aquela pessoa muito doente a que tivesse paciência nos seus sofrimentos, ouvi uma ou outra vez dizer : “Sim, Sr. Dr., se tivesse a paciência da Alexandrina…”

Que Alexandrina é essa de quem se fala, perguntei uma vez. “Da Alexandrina de Balasar”, ouvi eu em resposta. No entanto, depressa esqueci a impressão das palavras que ouvira, embora, já um pouco distante fosse conhecida a paciência da nossa heroína.

Em 1940, adoeceu gravemente uma senhora da Trofa, terminando a sua doença com uma glomérola-nefrite e amaurose. Era eu o seu médico assistente, mas sob a direcção de bons médicos do Porto, declarando eles por fim que era incurável a sua doença e próximo o seu fim.

O marido, um daqueles homens que é capaz de ir ao fim do mundo para conseguir uma coisa útil que tenha em vista, foi pedir ao Servo de Deus Padre Cruz, S.J., o favor de vir ver a doente. Ele veio e teve palavras de muito conforto, prometendo rogar por ela. Mas a doente ia piorando, e de que se lembra o marido? Tendo ouvido dizer que em Balasar havia uma doente muito boa pessoa e de quem se falava com admiração, resolveu pedir-lhe que intercedesse pela cura da sua mulher. Convidou-me a acompanhá-lo e lá fomos nós os dois e outros, em 29/1/41.

Tendo sido recebidos no seu quartinho, lá estivemos a conversar talvez umas duas horas. A conversa era entre uns dois ou três e a Alexandrina, e eu conservei-me silencioso, a observar tudo o que se passava. Pareceu-me que a minha presença impressionava um pouco a Alexandrina e eu achava graça ao seu olhar simples e cândido, mas profundo, que parecia ver tudo o que somos.

No fim da conversa, fiz-lhe umas perguntas a respeito da sua paraplegia e, nessa ocasião, ela ficou sabendo que eu era médico.

Prometeu-nos que ia rogar muito pela nossa doente, mas foi-nos dizendo que era preciso conformarmo-nos sempre e em tudo com a vontade de Deus.

Ao sairmos da sua casa, resolvi ir falar com o pároco, o Sr. Padre Leopoldino Mateus, porque me parecia ser extraordinária uma criatura que falava como ela falou, atentas as condições em que tinha vivido. Na conversa com o Sr. Padre Leopoldino, este fez as melhores referências à Alexandrina, dizendo-me que era a melhor auxiliar da sua vida pastoral e que visse se o director espiritual dela ― o Sr. Padre Mariano Pinho, S.J. ― me autorizava a assistir às sextas-feiras, das doze às quinze horas, a uns fenómenos que se passavam com essa sua paroquiana.

Pouco depois, fomos a Braga e obtivemos a desejada licença, trazendo um cartão a recomendar à Alexandrina a referida doente da Trofa. (…) Fomos assistir aos tais fenómenos no dia 14/2/41. Eram impressionantes, maravilhosos, inolvidáveis, e não se poderá duvidar mais tarde do que agora afirmo, porque eles estão filmados para a posteridade ou para a ocasião que seja oportuna.

No dia seguinte, a 15/2/41, escrevi ao Sr. Padre Mariano Pinho :

“Irei mais vezes a Balasar e procurarei como médico estudar a doença da Alexandrina, doença que acompanha os dotes de que o Senhor a dotou. Essa doença, que deverá ser uma mielite lombar e que deverá ser registada por vários médicos, a meu ver, mais realça todos os fenómenos que se passam todas as sextas-feiras, principalmente no que diz respeito a movimentos.

Enquanto a fisionomias várias, compostura de movimentos, profundeza de conceitos teológicos e místicos expressos, tudo isso é simplesmente admirável. Nada, absolutamente nada do que se passa, quer sob o ponto de vista clínico quer sob o ponto de vista teológico, nos poderá permitir classificar de naturais os fenómenos que observamos. Depois, a sua vida humilde e despretensiosa, a sua falta de cultura, o seu equilíbrio de inteligência e maneiras, a sua resignação completa, humilde profunda, os seus rasgos de génio amiudados, tudo isto envolto numa simplicidade encantadora, dá provas manifestas de que se trata duma alma a transbordar de sobrenatural.” »

A Alexandrina convencia, seduzia rapidamente. É agora com este médico, Já fora assim com o Monsenhor Vilar, será depois com o Padre Terças, com o Padre Humberto, com o Padre Isidoro Magunha, etc.

Do Dr. Abílio Garcia de Carvalho ao Dr. Dias de Azevedo

Em 26 de Janeiro de 1941, falece o Dr. Abílio Garcia de Carvalho, com um cancro no estômago, em Calendário, Vila Nova de Famalicão. É nesse mesmo mês que o Dr. Dias de Azevedo se apresenta ao Padre Pinho. Veja-se o que este escreve em No Calvário de Balasar :

« Mas eis que, em princípios de 1941, nos procura em Braga um cavalheiro que nos afirma ser médico — Dr. Manuel Augusto de Azevedo — e manifesta-nos desejo de ver a doente de Balasar, pedindo-nos para isso uma apresentação.

Lá foi e, depois de ter assistido várias vezes aos êxtases da Paixão, declarou-nos que um caso destes tinha de ser bem estudado e registado pela Ciência, tão extraordinário ele era.

Respondi-lhe que já vários médicos a tinham examinado e que os exames e resultados só serviram para mais torturar a pobre mártir.

Ele porém insistiu e comprometia-se a escolher médicos competentes e que tratariam a doente com todo o cuidado. »

O Dr. Abílio de Carvalho tinha consultório na Póvoa de Varzim desde 1919, na Rua de Santos Minho. É provável que a Alexandrina já o frequentasse desde 1920.

Para este médico e católico militante, que foi presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim (1935-1940), que interveio em vários congressos religiosos e pronunciou palestras em muitos pontos do país, ela devia ser uma doente especial, pois terá visto nela desde o princípio uma heroína, ao modo de Santa Maria Goretti. A Alexandrina dedicava-lhe grande estima. Ainda antes de acamar, porém, visto a medicina não se mostrar capaz de lhe devolver a saúde e ser dispendiosa a ida à Póvoa, passou a ser acompanhada por um médico de Rates.

Quando, em 1938, ao reviver a Paixão, a Alexandrina readquire, em êxtase, a capacidade motora, o Padre Pinho sentiu necessidade de ouvir a voz dos médicos que a tinham acompanhado, como escreve em No Calvário de Balasar, pág. 146 :

«Convidaram-se, antes de mais ninguém, o médico assistente, Dr. João Alves Ferreira e o Dr. Abílio Garcia de Carvalho, da Póvoa de Varzim, a presenciar alguns desses êxtases da Paixão.»

O Dr. Abílio de Carvalho fez então várias diligências no sentido de esclarecer a origem da paralisia da Alexandrina, de que o Padre Pinho dá conta.

O Dr. Dias de Azevedo veio pois continuar os esforços do Dr. Abílio de Carvalho.

Era preciso esclarecer em definitivo as razões da paralisia, era preciso esconjurar a aleivosia de que a Alexandrina fosse uma histérica. Com o início do jejum, será preciso esclarecer que ele é real e não uma mistificação e que ela não era uma anoréxica.

Mas as circunstâncias acabarão por chamar o novo médico assistente para outras tarefas, a principal das quais é a de defender, em várias frentes, a honra daquela que é a sua glória de médico (« a minha glória na vida »).

Já se viu que, quando chega a Balasar, ainda dirigia a Alexandrina o Padre Mariano Pinho. Fá-lo-á até final do ano seguinte. Em breve ia ter lugar o episódio do Padre Terças, que desencadeará enorme posição. Depois, acontecerá a Consagração do Mundo, em que muito poucos adivinharão a intervenção da Alexandrina. Mais adiante, ainda na continuação do estudo clínico, caberá ao Dr. Dias de Azevedo, como motivo alto de glória, levá-la ao Porto, ao Refúgio da Paralisia Infantil. Depois, será a luta entre os que aceitam o carácter extraordinário ― entenda-se, sobrenatural ― do que se passa com a Alexandrina e aqueles que o negam ; uma luta renhida e longa. Mas dela resultará também que tudo foi estudado, nada se afirma sem amadurecida reflexão, sem comprovação.

A Alexandrina no Refúgio de Paralisia Infantil

A verificação do jejum e anúria da Alexandrina no Refúgio de Paralisia Infantil, da Foz do Douro, muito deve ao Dr. Dias de Azevedo. Ele alonga-se sobre o assunto no Boletim, a partir de Abril de 1964, quando acabava de falecer o Dr. Gomes de Araújo. Fá-lo demoradamente, mas « esquecendo-se » de dar o justo relevo ao papel que lhe coube nesta verificação.

Depois de elogiar o director do Refúgio e referir as conversas por ele havidas com o Sr. Arcebispo, que o aconselhava a aprofundar o estudo clínico, prossegue:

« Fui ao Porto e convidei um médico distintíssimo a irmos a Balasar ver a Alexandrina (cuja doença ou afecção, em 15 de Julho de 1941, o Sr. Dr. Gomes de Araújo tinha classificado de paralisia orgânica por afecção medular de um ou mais focos), dizendo-lhe que não se alimentava. Respondeu-me logo que ia vê-la, quando eu quisesse. Disse-lhe, entre outras coisas, que era um caso interessante, visto que ela, além de não se alimentar, apresentava fenómenos extraordinários, que os teólogos chamavam êxtases. Então esse meu amigo respondeu-me logo que nesse caso desistia de estudar o « caso », visto que não queria meter-se em tal estudo.

Não pareceu dito próprio de tão formoso espírito que ele era. Como católico, tinha obrigação de estudar o « caso », ou para constatá-lo como admirável e respeitável coisa de Deus ou como mistificação a descobrir para não iludir ninguém. E poucos médicos estariam em tão boas condições intelectuais como ele estava. Mas as coisas são como são e, por vezes, como não devem ser.

Depois, fui convidar o Sr. Dr. Carlos Lima, e esse professor distintíssimo respondeu-me que aceitava o meu convite[4].

Por fim, fui convidar o Sr. Dr. Gomes de Araújo, a quem só disse tratar-se duma doente que não se alimentava. Também aceitou o meu convite, mas creio que persuadido de tratar-se duma anorexia mental igual a outro caso que já lhe tinha entregado e que ele muito bem curou, ou então duma mistificação.

Soube pouco depois que, falando-lhe alguém, na Trofa, neste caso, ele respondera que deveria tratar-se dum caso em que me iludiram e que, em poucos dias, sendo internada e vigiada a doente, daria o que tinha a dar. »

Continua mais adiante o Dr. Dias de Azevedo sobre o Dr. Gomes de Araújo :

« (…) para o internamento, fiz prometer-me duas coisas :

1.ª seria feito o estudo das faculdades mentais da doente, desejando saber, por escrito, se elas estavam ou não normais[5] ;

2.ª a doente não seria obrigada a alimentar-se, a não ser que a tal fosse persuadida, nem lhe seria injectado qualquer medicamento, a não ser que ela concordasse.

Em duas palavras: queria que ficasse registado se ela vivia sem se alimentar e se as suas faculdades mentais estavam normais, estando ela internada qualquer tempo que fosse julgado necessário, concordando o Sr. Dr. Gomes de Araújo com essas condições. »

No Boletim de Julho seguinte, prossegue o Dr. Dias de Azevedo :

« Não será demais falar no trabalho que teve o Sr. Dr. Gomes de Araújo a fim de investigar se de facto a Alexandrina vivia ou não sem a mínima alimentação, a não ser a Sagrada Eucaristia, autêntica purificação e fortaleza da Alexandrina, o que, sendo tudo, infelizmente para muitos é pouco ou nada. Essa sua investigação é tanto mais interessante quanto é certo que, a este respeito, o distintíssimo medico que era o Sr. Dr. Gomes de Araújo partia da impressão de que a Alexandrina seria uma doente que certamente queria iludir os outros. Aqueles 40 dias de rigorosa investigação foram um autêntico tormento mental para ele, disse-me uma vez a sua saudosa esposa, que também já partiu para a eternidade a receber o prémio das suas virtudes. (…)

Passados quinze dias, dizia-me o Sr. Dr. Gomes de Araújo, já no seu consultório:

― Você chegou para mim, pois comprometi-me a não forçá-la a alimentar-se e eu queria ver se ela podia ou não alimentar-se.

― Mas então, Sr. Dr., quem foi o iludido, eu por ela ou o Sr. Dr. por mim?

Nós não queremos saber se ela pode engolir ou não os alimentos, e eu sei que pode; mas, passados momentos, vomita-os.

Fiz essa experiência durante meses, desde Março de 1942 até Maio deste ano. O que quero provar ao mundo é que ela vive sem alimentação. »

Passemos agora ao boletim de Agosto :

« Afirmámos no boletim anterior ― continua o Dr. Azevedo ― que aqueles 40 dias de rigorosa observação foram um autêntico tormento mental para o saudoso e distintíssimo médico que foi o Sr. Dr. Gomes de Araújo. Parece-me que nessa ocasião ele estava convicto de que ninguém tivesse passado qualquer temporada de abstinência total de sólidos e de líquidos digna de referência e contra a normalidade das exigências físico-químicas do nosso organismo.

Essas inédias, de que nos fala a hagiografia cristã, eram pouco do seu conhecimento e convicção, partindo da normal lei orgânica de que ninguém podia viver durante meses e anos sem alimentação.

Ao estar na presença duma inédia que lhe apresentávamos para estudo e averiguação, duvidou, como cientista, da sua realidade objectiva, persuadido de que não teríamos tido todo o cuidado para sermos iludidos. Era o caminho próprio e seguro que um investigador tinha a seguir, e seguiu-o no seu inquérito e rigor, sim, mas também com respeito e registo das consequências que iam derivar do seu meticuloso estudo, não se deixando perturbar, nos seus juízos sobre o caso, com as insinuações que alguém, nessa ocasião do seu estudo, lhe fora fazer (…) »

Em defesa da Alexandrina

O Dr. Carlos Lima da Universidade do Porto, que comprovou o jejum da Alexandrina

A oposição à Alexandrina chegou a tomar formas muito duras. Vimos já que tudo começou com o artigo do Padre Terças, que tornou pública a vivência da Paixão pela Beata. Esta carta escrita pelo pároco de Chaves ao Arcebispo ajuda a compreender algumas condicionantes da actuação da comissão por ele nomeada :

« Excelência Rev.ma

Beijo respeitosamente o seu anel.

Achando-me em repouso aqui, no santuário do Sameiro, um fulano autoriza-me a dizer-lhe que o caso de Balasar (uma certa Alexandrina) não é senão uma torpe e indecente mistificação que é conveniente extirpar quanto antes. É um caso verdadeiramente monstruoso do qual deve desligar-se e sobretudo afastar o Padre Pinho. Não posso dizer outra coisa.

Servo inútil.

Padre José Francisco Gonçalves Fraga, Pároco de Chaves.

Sameiro, 30/7/1942 »[6].

Que poderia este pároco de tão longe saber de concreto sobre a Alexandrina ?

Que o terá levado a falar dela à autoridade eclesiástica em termos de « torpe e indecente mistificação », de um «caso verdadeiramente monstruoso » ?

Na oposição ao carácter sobrenatural do que se passava com a « doente de Balasar », destacava-se o jesuíta Padre A. Veloso, colega do Padre Pinho, que defendia que tudo acontecia por sugestão deste. Como o Cónego Molho de Faria, também ele acaso ouvira na Gregoriana as lições do Padre Siwek sobre Teresa Neumann. Como ele, generalizava sem análise.

E veja-se agora esta intervenção do Padre A. Veloso, aquando da ida de Alexandrina para o Refúgio de Paralisia Infantil para exame. Conta o Dr. Dias de Azevedo em carta ao Padre Pinho :

« Antes de ter (de redigir) o relatório, o Dr. Araújo foi abordado pelo Padre A. Veloso (tão digno de crédito que foi proibido de pregar nas dioceses de Lamego e do Porto), que disse para se não comprometer porque a doente de Balasar é uma impostora; para estar atento porque se trata de uma mistificação e que eu sou um fanático. Soube a coisa... mas pelo que me diz respeito perdoo-lhe e não quero que sofra com isso: peço-lho de joelhos. Quanto às afirmações acerca da doente, é preciso que o fulano esteja atento... porque há parentes de tal força que se viessem a saber da calúnia quebravam-lhe as costelas. » (23/08/1943)[7]

Poderá parecer que estas actuações tão lamentáveis merecem apenas o silêncio. Mas a história também se faz com tais baixezas e com elas se fez o sofrimento da Alexandrina. Além disso, elas explicam a firme reacção do Dr. Dias de Azevedo a uma frase dum escrito do Padre A. Veloso na Brotéria. A resposta do Dr. Dias de Azevedo saiu no Comércio do Porto. Sem este contexto não faz sentido.

Está-se já em Janeiro de 1947. O artigo do Padre A. Veloso intitulava-se « Mística e jornalismo » e alongava-se por 15 páginas. Começava assim :

« A psicose do maravilhoso vem de longe. E uma tentação mais ou menos cíclica, principalmente em tempos anormais, quando a vida, na palavra justa de Vauvenargues, mais se vence do que se vive. Pode haver outras razões, mas esta é, parece-nos, uma das mais influentes nesse curioso fenómeno, de que o nosso tempo nos tem dado abundantíssima ma­téria de observação e estudo.

Só dos últimos anos, lembram-nos os casos típicos do Barral, da Madre Virgínia (no Funchal), e das visionárias de Lamego, da Correlhã, da Vergada, de Pereira de Avidagos, de Balasar, do Pinheiro, de Baião, de Oriz e, ultimamente, a de Vilar Chão. E certamente que o rol não fica por aqui. Estes casos, porém, tornaram-se mais conhecidos, não porque valham mais que os outros, mas porque a imprensa periódica, tomando-os à sua conta, lhes deu, com razão ou sem ela, uma notoriedade que, de outro modo, nunca chegariam a ter. »

O Dr. Dias de Azevedo riposta: o Padre A. Veloso não era especialista no tema; os médicos tinham dado o seu veredicto e ele não o respeitava; havia o testemunho do insuspeito e categorizado Cónego Vilar. Por isso concluía que o Padre A. Veloso devia ser impedido de voltar a escrever na Brotéria.

Este médico tinha muitas e boas razões para defender a Alexandrina. Ela não era impostora, o seu apego à verdade e a sua humildade eram totais, o seu bom-senso não admitia dúvidas, o carácter sobrenatural do que com ela se passava impunha-se por si a quem a acompanhava de perto.

30 de Junho de 1953

Esta data há-de ter ficado bem marcada na vida do Dr. Dias de Azevedo, mesmo que tão pouco se fale dela. A afluência à casa da Alexandrina vinha a atingir números inacreditáveis: no dia anterior, ela recebera cerca de 15.000 pessoas!

Seria razoável manter a situação? É sabido que o Sr. Arcebispo não a via com bons olhos e agora outras vozes se levantavam contra. O Jornal de Notícias foi sem dúvida a que mais alto falou. É nas suas páginas que o Dr. Dias de Azevedo faz escrever em Setembro:

« Quem primeiro trocou impressões com a Família da Doentinha, sobre a inconveniência das numerosas visitas que há dias lhe estavam fazendo e quem aconselhou a sua completa supressão, e disso há testemunhas, foi o tal « médico e teólogo », que está ditando estas linhas. ... As visitas terminaram no dia 30 de Junho ».

Mas há-de ter sido uma decisão difícil. Não era por puro milagre que a Alexandrina conseguia tirar forças da sua extrema fraqueza para receber as visitas que Jesus lhe enviava pois que era Ele que as enviava, como se lê nos êxtases ?

Mas certamente o objectivo tinha sido atingido e o mesmo Jesus, indirectamente, aprova a decisão, pois se lê no êxtase de 4 de Julho :

« Diz ao teu médico que lhe recomendo coragem, coragem, coragem !

Diz-lhe que sou infalível, diz-lhe que estou com ele, diz-lhe que velo por ele e por todos os que são dele.

Velo por ele e ele vela pelo que é meu. Protejo-o e ampara-o e ele protege e ampara a minha causa, a minha maior causa. »

A polémica do «Jornal do Médico»

O Dr. Joaquim Pacheco Neves (Vila do Conde, 1910 – Porto, Hospital de S. João, 1998) foi um polígrafo considerável. Em 8/8/953, publicou no « Jornal do Médico », como editorial, um artigo algo desprestigiante para a Alexandrina, sob o título de « Um caso estranho ».

Este Verão de 1953 estava aliás a ser quente. Já haviam escrito sobre a Alexandrina O Gaiato, o Diário do Norte e o Jornal de Notícias e ainda um jornal de V. N. de Famalicão. O Dr. Dias de Azevedo, que publicara três artigos no Diário do Norte, acaba por levar a tribunal o Jornal de Notícias, que falava do Caso de Balasar com certa hostilidade[8]. A afluência a Casa da Alexandrina nunca tinha sido tão grande. Jesus dissera-lhe : « Estás a viver a minha vida pública ».

Como o articulista do Jornal de Notícias, também o Dr. Joaquim Pacheco Neves se mostrava respeitoso para a Alexandrina; como ele, dizia impropérios sobre os visitantes.

A resposta do Dr. Dias de Azevedo não se fez esperar. Tendo o Dr. Joaquim Pacheco Neves replicado, o Dr. Dias de Azevedo respondeu-lhe de novo. E ainda acrescentou um terceiro artigo.

Veja-se a parte mais significativa do escrito inicial do Dr. Joaquim Pacheco Neves, onde há pormenores interessantes:

« A quilómetros da vilazinha onde eu moro, vive uma pobre mulher a quem a doença inutilizou e reduziu à quase expressão de dois olhos negros e buliçosos. Uma queda aos quinze anos fracturou-lhe a coluna e deu origem a uma paralisia que a imobilizou numa cama donde começou a dar um exemplo edificante de resignação e paciência. Se a visitavam e lhe diziam uma palavra de lamento, ela encolhia os ombros magros, esboçava um sorriso resignado e dizia-se conformada com o seu sofrimento e destino.

Assim se passaram dez, quinze, trinta anos sem que a frescura do seu rosto murchasse ou a vivacidade do seu espírito ensombrecesse. Sempre com um sorriso alegre a iluminar a tristeza do seu olhar calmo e uma palavra de consolo a desprender-se dos seus lábios descorados, ela mostrava uma resignação e paciência que começou a criar na vizinhança um sentimento de veneração que aos poucos transbordou para as aldeias mais próximas. E começou a chegar gente para a ver. Outra vinha para a ouvir. O recorte suave do seu rosto pálido, a expressão doce dos seus olhos tristes, a transparência azulínea das suas mãos delicadas, o tom penetrante da sua voz lenta e a comunicabilidade da sua palavra consoladora, criaram no espírito daquela gente simples uma ideia de sobrenaturalidade, de um ser à parte mantido na vida por um desígnio superior ao seu entendimento que a maravilhava. Os que vinham para pedir, rezavam com ela. Ela também nada dizia que não fossem simples palavras de conforto ou piedosas orações. As mezinhas misteriosas, os sinais cabalísticos, os passes magnéticos, desconhecia-os. Aconselhava apenas resignação, dizia palavras de esperança, consolava as almas desesperadas. Mas o sentimento que as ditava, a dor alheia que tomava para si, tantas vezes, as lágrimas que chorava por amor do próximo, eram de molde a erguer um altar de fé nas almas que dela se aproximavam e a criar uma legenda de santidade junto dos que ela acolhia.

Assim se dilatou o conhecimento desta pobre mulher que, por muito se dar, muito se esquecia de si. O sou nome começou a andar de boca em boca e ultrapassou as raias fronteiriças. Dos recantos mais longínquos do país vieram excursões de curiosos. De Espanha veio também gente para a ver. Junto da sua humilde casa organizavam-se peregrinações a que só a Igreja era estranha. Os que sofriam e esperavam, tinham fé no poder magnífico das suas palavras e no valor das suas orações. Sentiam-se reconfortados na sua presença e aceitavam a sua intervenção como a expressão maravilhosa dum prodígio extra terreno, cujo entendimento estava fora do alcance da compreensão humana.

E a legenda de santidade foi firmando raízes. Falava-se de milagres: cegos que viam, paralíticos que andavam, curas extraordinárias que se obtinham, numa revoada de esperanças que alargava por longe a fama do seu nome. Dela se dizia que não se alimentava, como se a vida orgânica já tivesse chegado ao sou termo e a sua existência só se mostrasse pela chama brilhante que luzia no seu espírito. E vieram médicos pa­ra a ver, atraídos pela nomeada extraordinária da sua fama.

A mistificação podia ocultar-se por detrás do temperamento neurótico, impressionável e impressionador, destes que quase suspendem a vida vegetativa quando a força de vontade determina. E propuseram-lhe o internamento numa Casa de Saúde, que ela aceitou. E vigiaram-na durante largas semanas sem descobrirem qualquer fraude. O único alimento que ela não dispensava era o Sagrado Viático que ela recebia com humildade e unção cristãs. Os seus lábios em nada mais tocavam. As observações dos médicos chegaram por fim a termo e ela regressou de novo à sua pobre casa da aldeia. Vinha como fora, com a mesma resignação, a mesma bondade, a mesma compreensão pelo sofrimento alheio. Não se sabia qual o parecer dos médicos. Mas o povo, com a sua imaginação prodigiosa e a sua tendência para o maravilhoso, continuou a ungi-la com a sua fé e a procurá-la com a sua devoção, como se não tivesse quaisquer dúvidas sobre a missão que lhe fora confiada na terra e soubesse, de fonte certa, que ela era um elo de ligação entre a humanidade que sofre e o infinito poder de Deus.

Este caso estranho, que agitou o Norte do país e movimentou muitos milhares de pessoas, merece um comentário ligeiro à margem de paixões que, como é de costume, acompanham sempre os eventos que saem da linha do comum.

Trata-se, na verdade, duma pobre mulher de espírito simples e desinteressado, sublimado por virtudes que se originam, talvez, na própria doença. Salvo os prolongados jejuns, que aliás se vêem de quando em quando anunciados nos jornais como curiosidade de indivíduos dados a certas práticas abstencionistas, a resignação, o sofrimento, a paciência, a compreensão, a tolerância e a bondade, se não são atributos comuns, não são tão excepcionais que não se mostrem em milhares de pessoas sem que felizmente surja qualquer acontecimento que lhes dê notoriedade. A própria formação religiosa não ultrapassa a linha vulgar — não é uma mística com arrebatamentos e transportes que deixem perceber uma psiconeurose, nem uma beata que se esconda por detrás da sua hipocrisia. As condições de excepção são outras e vivem mais do desinteresse que ela mostra pelos bens do mundo que a podiam enriquecer do que da fama que lhe criaram sem outro proveito que não seja o de aumentar-lhe o sofrimento. »

Leia-se agora a resposta que o Dr. Dias de Azevedo deu ao seu colega, em 19/9/953, sob o título de « Respeitosas referências a “Um caso estranho” » :

« Lemos há dias o artigo do Senhor Dr. Pacheco Neves, “Um caso estranho”, publicado no Jornal do Médico. Fora-nos anunciado como um artigo que humilhava aqueles que estão confiantes na grandeza deste Caso. Afinal, não é bem assim. Literariamente, parece estar bem feito e até, ao findar a sua leitura, nos veio à memória, mantidas as devidas proporções, a “Vida de Jesus”, de Ernesto Renan. Este artista literário quis amortalhar no lençol de púrpura do seu estilo feiticeiro a divindade de Jesus, e o nosso colega, se isso lhe fosse possível, amortalhará no seu belo estilo aquilo que há de invulgar e extraordinário no Caso de que falou. Tê-lo-ia conseguido ? Parece que não. Um dia Felix Leseur, medico ateu, amigo íntimo do sábio Le Dantec, quis amortecer as crenças católicas de sua esposa, a extraordinária mulher que foi Elisabeth Leseur, e por isso, entre os livros cuja leitura lhe aconselhou, dois deles foram a “História das Origens do Cristianismo” e a “Vida do Jesus”, do Renan. O resultado da sua leitura, porém, foi contraproducente. Elisabeth, inteligente como era, não se deixou fascinar pelo brilhantismo da forma literária desses livros e ficou surpreendida pela pobreza do seu fundo. Lendo atentamente o artigo do nosso Colega, vemos bem que as roupagens literárias com que o revestiu são aliciantes, mas, afinal, não conseguiram o fim em vista.

Falta de talento, falta de sinceridade, talvez nada disso ; simplesmente, dificuldade e grandeza do assunto a demolir. E senão vejamos. Percorramos o artigo a fugir, notando também uma ou outra inexactidão mais importante ; e da existência delas não haja surpresa, porque dizem não haver bela sem senão. Essa mulher, pobre, porque assim o quer, dos bens terrenos, mas rica dos bens celestes, embora emaciada, ainda não esta assim reduzida a “uma quase expressão de dois olhos negros e buliçosos”.

Nem oito nem oitenta, Colega ; nem tem a coluna fracturada. Dizem (Dr. Roberto de Carvalho e outros) ter uma mielite. Mas mais ou menos mielite, mais ou menos polinevrite, não é isso que nos traz justificadamente apreensivos. Há, por aí, muitas mielites e polinevrites e nada disso é fora do vulgar. Mas “o exemplo edificante de resignação e paciência, o sorriso resignado” para os visitantes, e dizer-se “conformada com o seu sofrimento e destino”, esses “dez, quinze, trinta anos sem que a frescura do seu rosto murche ou a vivacidade do seu espírito ensombrecesse, sempre com o seu sorriso alegre a alumiar-lhe o olhar calmo”, toda essa resignação e calma que chegou “a criar na vizinhança um sentimento de veneração, que transborda para as aldeias mais próximas” e afastadas, e para o estrangeiro, tudo isso que o Colega regista, que significa e denuncia ? Qual a causa de efeitos tão belos ? Que nevrose ou psiconevrose ou doença mental, referidas na Neurologia e Psiquiatria, se coaduna com o estado orgânico, psíquico e moral a que se está referindo no seu artigo ? Se queremos fazer ciência, temos de explicar os efeitos por causas proporcionadas. Como se chama a árvore que dá frutos tão belos ? Essas qualidades morais, evidentes na nossa heroína, constantes e nunca desmentidas, serão vulgares ? Essa sua heroicidade de virtudes não será caminho aberto para coisas superiores e transcendentes? Os factos tão persistentes, tão coerentes, tão belos e radiosos, sob o ponto de vista moral, e que aponta nessa doente deixam-nos perplexos, não nos permitindo dar-lhes uma explicação natural. Mas o Colega continua o seu fraseado belo, cujo resultado será aumentar o número de visitantes, que provocarão as iras de gansos que grasnem no Capitólio, talvez devido ao medo de Deus, sofrendo o médico assistente e a família da doente as respectivas alfinetadas e consequências. E essa doente nada diz “que não fossem palavras de conforto ou piedosas orações; nada de mezinhas misteriosas, sinais cabalísticos, e só palavras de esperança a consolar almas desesperadas”. E a fama desta doente, “que por muito se dar, muito se esquecia de si”, passou as fronteiras, mostrando, talvez, que estamos todos alucinados, não é assim ? Que poderá a Neurologia ou a Psiquiatria dizer sobre isto ?

Sempre além, deixando as circunstâncias secundárias para o caso de que fala, e de que ninguém tem culpa, para nos interessarmos do essencial, do importante caso: vieram os médicos, e a doente foi internada numa Casa de Saúde, em que foi vigiada, de dia e de noite, sucessivamente por três grupos de duas Senhoras, havendo o cuidado de escolher algumas descrentes em Religião. Esteve internada durante 40 dias e, nesses dias, foi constatado que não bebeu uma gota de água nem houve a menor excreção. Onde se registou um caso natural destes, Colega ? O seu peso manteve-se constante, as suas tensões normais, o seu sangue, analisado à quarta semana de internamento, era normal nos seus elementos constitutivos e de desassimilação, a sua vida intelectual era sujeita a rigorosos interrogatórios e finalmente foi dito que a Medicina não explicava este caso por modo natural.

Mais e a propósito: o argumento único que convenceu a doente a deixar-se internar foi eu dizer-lhe que a Autoridade eclesiástica assim o desejava. Tudo tem, já se vê, a sua significação, o seu valor para o julgamento de Caso.

Enquanto ao jejum ou abstinência dessa doente, o Colega está enganado, ao dizer que esse jejum se vê, de quando em quando, anunciado nos Jornais. A abstinência alimentar dessa doente data de 1942, é quase absoluta, porque só bebe, de longe a longe, umas colherinhas de água simples, mas simples. Em 1942, fizemos várias experiências, dando-lhe água açucarada ou com qualquer água mineral ou coisa idêntica, mas tudo isso era lo­go vomitado. Desde então, nada tomou a não ser a tal água simples.

Onde se vêem esses jejuns, a não ser em Tereza Neumann, de Konnersreuth, ou no Padre Pio, em Itália ? A Fisiologia e a Patologia ensinam-nos que o homem não pode sobreviver a uma abstinência de sólidos e líquidos, prolongada por semanas. Sabemos que o Lord Cork, recusando alimentar-se, em protesto contra a dominação inglesa sobre a Irlanda, e tomando somente líquidos, durou dois meses e meio. O bandido Granié, bebendo água e não querendo alimentar-se, durou 63 dias. Gandhi fazia os seus jejuns, mas tomava água e vitaminas, e sabemos bem o que lhe acontecia em poucos meses de jejum. Os faquires fazem os seus jejuns, que não são totais, e por pouco tempo. Os que sofrem de anorexia mental não se privam da alimentação total, e todavia conhecemos bem o seu estado psíquico, o seu emagrecimento e, se não arrepiam caminho, depressa caem no túmulo.

Mas então não haverá pessoas que vivam num jejum perpétuo ? Há sim. Essa doente de que estamos falando, o Padre Pio na Itália e Tereza Neumann, a mística de Konnersreuth. Pelo que nos dizem o Dr. Imbert Goubeyre e o Dr. Henri Bon, que são autoridades destes assuntos, conhecemos vários místicos que viveram numa inédia bem constatada e naturalmente inexplicável: Ângela Foligno, que viveu dois anos, sem tomar qualquer alimento, S.ta Catarina de Sena, 8 anos, Isabel de Reuth, 12 anos ; Catarina Emmerich, nos últimos 12 anos de vida, só tomava água fresca simples e a Sagrada Comunhão; Nicolau von der Flue, passou 20 anos sem comer nem beber, e apresentava-se sempre bem disposto e robusto; Dominica del Paraiso, 20 anos; Santa Ludovina de Schiedman, 28 anos ; etc., etc.

O verdadeiro alimento destes místicos era a Sagrada Comunhão. Autoridades Civis e Eclesiásticas constaram, por vezes, essa abstinência de alimentos com o maior rigor. Quem não sabe o que se tem passado com Tereza Neumann, no nosso tempo ? Quem explica, naturalmente, a possibilidade e facto da rea1ização de tais inédias, de tais abstinências alimentares ? Pelo contrário, que sabemos nós da parcial abstinência alimentar dos anoréxicos mentais ? Sabemos que, apesar dos seus metabolismos descerem muito, e das suas combustões internas serem reduzidas, e de tomarem alguma quantidade de alimentos, o falecimento desses anoréxicos mentais sobrevém, nos casos rebeldes ou sem tratamento, em poucos meses. E não nos falem, nestes casos, em letargia própria dos animais hibernantes, pois trata-se, por vezes, de pessoas de vida normal e até muito activa. Não nos falem também em assimilação das radiações solares.

O dever da ciência é “estudar os factos e indagar-lhes a causa, qualquer que ela possa ser”. Claro que podemos tentar dar uma explicação desses jejuns, mas é preciso que ela seja razoável. E diz o Dr. Henri Bon que “quando se trata de fenómenos comuns a duas disciplinas intelectuais, ou a duas ciências, a conclusão definitiva não se obtém sem que os dois métodos confiram juntamente os resultados. E nos fenómenos médico-religiosos é à Teologia que pertence evidentemente a última palavra. Em matéria religiosa, a leviandade é inadmissível”. Esses jejuns não querem dizer, só por si, santidade. Num e noutro jejum, até poderá haver intervenção diabólica. É certo que o que faz os Santos não são estes jejuns nem estas abstinências alimentares. Mas, regra geral, estas absolutas abstinências alimentares, prolongadas, são gritos clamorosos a anunciar-nos que há um Ente Supremo e Providente, que nem tudo acaba com a morte, e que são do Céu as Mensagens, que alguns desses abstinentes nos anunciam. Nessas inédias sensacionais, aliadas a outros fenómenos místicos extraordinários, embora a Medicina e a Psicologia devam ser ouvidas, a última e decisiva palavra pertence à Mística, pertence à Igreja. O nosso caso um destes.

Como vê, Colega, não poderá dizer-se que casos como este “não faltam por esse mundo fora” e não basta “vê-los apenas pelo seu aspecto humano”, se os quisermos explicar.

Concluindo agora: a princípio, comparei o estilo do Colega ao fraseado sedutor de Renan. Quero terminar os meus dizeres, recordando o fim deste brilhante escritor francês, no meio literário e científico em que por tempo pontificou. Nessa Academia Francesa, o seu sucessor Challemel Lacour provou no seu discurso de recepção, em que era costume fazer-se o elogio do antecessor, que a ciência de Renan não era científica e que a filosofia deste filósofo não era séria.

É sabido que Renan tinha recebido dum banqueiro judeu um milhão de francos para escrever as blasfémias que escreveu contra a Divindade de Jesus. A Bossier, encarregado de responder a Challemel (querendo atenuar o golpe dado em Renan), só foi possível dizer que Renan era um “sonhador”.

No seu leito de morte, às seis horas da manhã de 2 de Outubro do 1892, um domingo, Renan morria a rezar, a dizer : “Tende compaixão do mim, meu Deus, tende compaixão de mim”. Por fim, o Colega desculpar-me-á o dizer que o seu artigo, literariamente bem escrito, é inofensivo contra o maravilhoso e extraordinário do caso de que fala. Sendo os frutos bons, óptimos e raros, boa, óptima e rara devera ser a árvore que os dá. Isto também é ver as coisas “pelo seu lado humano”.

Ribeirão, 31 de Agosto de 1953.

Dias de Azevedo. »

A cura da esposa do Dr. Dias de Azevedo

Na Figlia del dolore, madre di amore, os Signorile introduzem assim o relato deste episódio[9]:

« Tenha-se presente que Alexandrina, tendo ficado sem a ajuda espiritual do Padre Humberto, tem como único apoio o Dr. Dias de Azevedo, que desde 1941 é amigo da família bem como todos os seus ; vimos que um dos filhos teve Alexandrina como madrinha de baptismo; além disso a filha Irene, doutora em medicina, passa muitas vezes alguns dias hospedada em casa da Alexandrina, da qual escreve até alguns ditados.

Em Dezembro de 1948 a mulher do Dr. Dias de Azevedo adoece muito gravemente. »

Ouça-se agora a Alexandrina :

« Entrou no meu quarto o filho extremoso do meu médico a dar-me a notícia de que sua mãezinha se encontrava às portas da morte. Não sei como fiquei !

Com a lâmpada e velas acesas, todos os que estavam ajoelharam.

Ofereci a Nosso Senhor o meu corpo e a minha alma como vítima da enferma; pus todo o Céu em movimento.

Nos intervalos em que me respondiam às orações, eu dizia (intimamente) a Nosso Senhor :

Deixai-a, deixai-a, Jesus, para acabar de criar os seus filhinhos; provai-me agora o amor que me tendes !

Sossega, minha filha, não morre, não morre; confia em mim, eu te afirmo, eu te afirmo: não te nego o que me pedes ; confia no amor misericordioso do meu divino Coração. Sou eu, Jesus, a afirmar-te, a prometer-te. Prova agora a tua confiança. »

A Alexandrina entra entretanto numa longa luta com o demónio que lhe afirma ser fruto da sua imaginação a afirmação que ouviu de Jesus.

« Quando o demónio me repetiu as suas mentiras continua eu repetia com o coração :

Sagrado Coração de Jesus, eu tenho confiança em vós !

Enquanto possuía a luz, parecia-me ter em mim duas vidas: o meu espírito estava mergulhado, muito unido à dor e tristeza dos entes queridos da doente, e a alma entoava, ao mesmo tempo, hinos jubilosos ao bom Jesus. Não sei como podia sofrer tanto e a alma tão forte cantar ao mesmo tempo....

Era já noite (do dia seguinte), muito de noite, e soube que realmente estava melhor. Não sabia como agradecer a todo o Céu ! »

Morrerá somente em 21 de Fevereiro de 1986.

O crucifixo da Alexandrina

Veja-se agora estoutra intervenção do Dr. Dias de Azevedo onde é notório o real ascendente que sobre ela possuía. Estamos em Junho de 1950; conta a Alexandrina:

« Há cerca de uns 15 dias, durante a noite, um crucifixo que tenho pendurado no muro na parede ao lado apareceu-me na cama ao pé de mim: fiquei maravilhada, mas foi coisa dum momento, que depois esqueci; não disse nada sobre isso.

Desde há anos costumava ter ao meu lado e sobretudo de noite entre os meus braços um crucifixo. Tendo recebido um de presente (do Padre Pinho), fiz retirar o que tinha e fiquei com o novo comigo.

Alguns meses depois, dei-o eu e pedi para me devolverem o que tinha mandado retirar. Esqueceram-se de mo dar e eu fiquei sem ele alguns dias, não por meu esquecimento, mas para não importunar os meus.

Foi neste período que apareceu ao meu lado o crucifixo que estava pendurado na parece.

Na noite de segunda para terça, o crucifixo da parede reapareceu-me sobre o peito, entre os braços, sob as mantas, como se fosse posto ali. Fiquei impressionada: parecia-me sonhar. Falei disso com toda a naturalidade, mas sem fazer menção nos escritos. Fui depois obrigada (pelo Dr. Dias de Azevedo) a descrever o acontecido e, para maior tormento, a pedir a Jesus o significado. Fá-lo-ei com verdadeira repugnância: é a minha cruz. Jesus me perdoe: eis a minha virtude: quanto estou longe da perfeição !

* * *

― Ó Jesus, aceita o meu sacrifício: queira-o ou não, devo obedecer e perguntar-Te o significado da vinda da tua imagem crucificada sobre o meu peito.

Jesus sorriu docemente…:

― Quero que me fales sem temor e com toda a simplicidade… O motivo que Me levou a desprender-me do muro e a vir a ti é muito simples: o crucifixo deve estar sempre unido à crucificada. » (16/6/1950)

Repare-se na autoridade que, na ausência dos directores espirituais, o Dr. Dias de Azevedo assume.

Ele era certamente um homem bom, mas também um homem desinibido, sem temores injustificados. Veja-se o que segue, agora pela pena do próprio:

« Por vezes, via-a (a Alexandrina) com dores quase insuportáveis; e, para que elas diminuíssem, obrigava-a pedir a Deus ou à Virgem Santíssima a diminuição dessas dores, por algum tempo, e, coisa curiosa, era sempre ouvida, embora muitas vezes ela fizesse esses pedidos contrariada, pois dizia-me que era preciso haver quem sofresse em reparação dos pecados do mundo. Sorrindo, respondia-lhe que dissesse a Jesus que o corpo dela não era bigorna de ferreiro. »

Leia-se ainda este extracto dum dos colóquios dos primeiros sábados, onde tantas vezes se fazem exortações e elogios ao Dr. Dias de Azevedo :

« Diz, diz ao teu médico que o tenho no meu Divino Coração, como jóia do mais elevado valor.

Diz-lhe que o amo tanto, tanto que as cadeias do meu amor o prendem, dia a dia, mais e mais a mim.

Diz-lhe que o cadinho da dor é para purificar a sua alma ; que é o cadinho que purifica o ouro das suas virtudes.

Diz-lhe que tudo quanto faço nele e no seu formoso jardim são provas de amor e predilecção, são cuidados inauditos do Jardineiro divino.

Eu não quero, eu não quero, atenção, que nenhuma das suas florinhas se perca, que nenhuma se manche.

Dá-lhe todo o meu amor divino.

Diz-lhe que com ele se fortaleça, para com ele, como sempre, cuidar e defender a Minha causa divina. » (1/11/52)

Alexandrina ligada e estendida sobre duras tábuas

Depois da passagem da Alexandrina pelo Refúgio de Paralisia Infantil, a actuação do Dr. Dias de Azevedo assume junto dela uma visibilidade menor, a não ser quando a tem de defender nos meios de comunicação. Veja-se porém a intervenção seguinte:

Por fins de Setembro de 1946 as articulações dos braços e das vértebras da Alexandrina desconjuntaram-se. O Dr. Dias de Azevedo decide intervir: prepara dois ganchos em forma de « s » alongado que segura à cabeceira da cama; enfaixa apertadamente os braços de Alexandrina e prende-os sobre os ganchos de modo que a suportem passando sob as axilas. Além disso, manda pôr duras tábuas sob o colchão e enfaixa-lhe todo o corpo.

Alexandrina ficará assim até à morte[10].

No diário de 4 de Outubro de 1946, conta ela :

« Este dia de aniversário (da primeira crucifixão, 3 Outubro de 1938), sem nisso reflectir nem nada combinar, ficou também a ser a data em que o meu pobre corpo, ligado, ficou sobre umas duras tábuas. Mas apesar disso fiquei sedenta de mais e mais dor, mais e mais amor.

O meu caridoso médico disse-me algumas palavras de conforto, depois de me preparar o meu duro leito. Agradeci de alma e coração. Mas essas palavras passaram ao longe, pareceu-me não serem dirigidas a mim. »

Este leito torna-se-lhe um leito de espinhos, uma cruz. A partir desta data, ela não aparece deitada na cama normalmente, mas um pouco erguida, entre deitada e sentada.

No diário de 10 Julho de 1949 dita :

« O meu corpo está todo trespassado pelo leito de espinhos. Não é só o corpo ferido por eles, é também a alma e todos os sentidos.

A roupa que visto e cubro são como que chuva miudinha de espinhos penetrantes que se cingem a mim. Prendem-me de tal forma que não posso ser movida para um lado ou outro sem sentir como que se me rasgassem as carnes, desfizessem os ossos e todo o meu espírito.

Sofre a alma, sofre o corpo, tudo por Vós, meu Jesus.

A minha natureza sente pavor, tenta revoltar-se contra tudo, contra todas as visitas. Se pode haver coisa pior do que pavor, é o que eu sinto. »

Apêndice documental

Carta ao Sr. Arcebispo (2/8/44)

O Dr. Dias de Azevedo escreveu muitas cartas respeitantes à Alexandrina ou mesmo a defendê-la. A que se segue data de Agosto de 1944, quando o Padre Humberto viera já a Balasar, mas ainda não assumira a direcção espiritual. Trata-se dum importante documento pela clareza da argumentação usada na defesa da Alexandrina. Além disso, o original encontra-se no arquivo de Balasar :

« Exmo. e Revmo. Senhor Arcebispo Primaz

Recebi o amável cartão de V. Exa. Rev.ma, acompanhado do parecer duma comissão e dumas determinações, relativas ao caso, há muito falado, de Balasar. No fim de ler tudo o que me era dito, senti o dever de dizer a V. Exa. Rev.ma, com o maior respeito e com a maior franqueza, umas cinco palavras :

1.ª Palavra: guardarei sempre em meu coração as palavras amáveis do cartão do Senhor Arcebispo Primaz, agradecendo-lhas, muito penhorado ;

2.ª Palavra: procurarei ter a maior prudência, ao ser provocado a falar ou escrever da Alexandrina e sempre recordarei as determinações de V. Ex.cia Rev.ma, para lhes ser obediente, na medida do possível, salva a liberdade para responder a qualquer crítica referente ao caso, saída em qualquer jornal ou revista de responsabilidade, pois não posso nem quero menosprezar o meu brio profissional ;

3.ª Palavra: continuarei inabalável, até que a razão ou o bom-senso me aconselhem atitude diferente, no mesmo posto de observação, prudência, investigação clínica e admiração pela Alexandrina, verdadeira mártir, que o tempo e Deus plena e brilhantemente justificarão ;

4.ª Palavra: servindo-me da ideia do Prof. da Faculdade de Medicina do Porto, Senhor Dr. Mazano, que, falando sobre este caso, e mostrando-se muito interessado por ele, disse «não há explicação possível para já não comer há dois anos», eu continuo, como médico, sem receio de ser confundido, a afirmar que este caso é extraordinário, porque a Ciência diz que uma mulher de 39 anos, de vida intelectual e afectiva intensas, de faculdades e sentidos normais, passando alguns dias e noites sem dormir, e dormindo pouco durante o outro tempo, conservando invariavelmente ou com pequena variação o mesmo peso, conservando ainda o sangue normal nos seus elementos constitutivos ou de desassimilação, vivendo não somente quarenta dias completos e consecutivos (sob vigilância, de dia e de noite, feita por algumas pessoas descrentes), mas dois anos e três meses, aquele primeiro período em abstinência absoluta de alimentos sólidos e líquidos, incluindo a simples água, e o outro período em abstinência absoluta de substâncias alimentares, simplesmente bebendo, um ou outro dia, por imposição médica, uma ou outra colherinha de água simples, com o fim de diminuir a secura que em sua boca por vezes sente, constitui um facto verdadeiramente extraordinário, não sendo preciso, para esta classificação, que os médicos tenham de pedir licença aos filósofos ou teólogos para digna e justamente a fazerem. A quem me disser que há um parecer de filósofos e teólogos que, invadindo campo defeso, significa não ser extraordinário este facto (que maravilhou um especialista de Neurologia não crente em vários dogmas católicos, a ponto de anunciar que devemos ficar «suspensos, aguardando que uma explicação clara faça a necessária luz», pois a observação da Alexandrina tinha podido «ser segura, firme, incontestável, só deixando dúvidas aos que têm o hábito de duvidar … de si próprios»), eu responderei que quem tiver lido a História e a biografia de algumas criaturas extraordinárias sabe bem o valor dos pareceres de uma ou outra comissão. A Igreja só quer a verdade e eu amo uma e outra.

5.ª Palavra: a Comissão, lendo isto, há-de julgar que esta prosa é um pouco enfadonha e estranha a amantes da filosofia e teologia, e eu, para a suavizar, peço licença para citar as palavras do Padre Louis Capalle, S.J., em « Les âmes généreuses », pág. 165 e seg. :

“La vérité théologique et expérimentale est que Dieu n’a pas donné aux âmes une résistance illimitée, et qu’Il a laissé aux directeurs ou supérieurs imprudents la puissance redoutable d’entraver ou même de ruiner l’œuvre magnifique qu’Il se proposait d’accomplir. Nier cette vérité ou même chercher à l’atténuer par sophismes spécieux, serait atteindre par le fait même la notion de responsabilité, fondement essentiel de toute morale.”

E, depois de mais frases muito interessantes, diz ainda :

“Malheureusement, après une réponse évident, on en veut souvent une plus évident encore ; et ainsi on oublie que Dieu, souverainement indépendant, ne se plie pas toujours aux exigences de ses créatures. Il donne assez de lumières pour que l’on puisse raisonnablement conclure à son intervention, et Il laisse assez de ténèbres pour que l’on ait le mérite d’une humble soumission.”

Todas estas frases podem resumir-se em poucas: as determinações de V. Ex.cia, no geral, são justas, embora o tempo não venha a justificar algumas palavras como «pretensos», e o parecer da Comissão, enquanto ao facto, é exorbitante, negando-lhe a qualidade de extraordinário e dando lugar até a juízos temerários, o que não fica bem a filósofos e muito menos a teólogos. Termino esta, fazendo votos pela preciosa vida de V. Ex.cia Rev.ma e pedindo que esta carta seja anexa ao supra mencionado parecer da referida Comissão (ou ao relatório do médicos) que se pronunciou sobre a grande mártir que é a Alexandrina de Balasar, a quem o Mons. Vilar chamava sua “protectora”, a sua “colaboradora providencial”, a sua “cooperadora mais fiel que Jesus lhe deu”. E esse valia uma Comissão.

Beijo as mãos sagradas de V. Ex.cia Rev.ma.

Manuel Augusto Dias de Azevedo       
Ribeirão, 2 de Agosto de 1944. »       

Um discurso

Em 1956, houve em Balasar uma singela homenagem à Alexandrina: descerrou-se no Centro Paroquial o seu retrato. Na ocasião, o Dr. Dias de Azevedo proferiu um discurso. O Padre Leopoldino publicou-o no « Ala-Arriba » de 7/4/56, donde se transcreve:

« Neste acto de gratidão e homenagem àquela que com carinho chamávamos a Doentinha de Balasar, sinto o dever de dizer algumas palavras de saudade, de parabéns e de agradecimento.

Palavras de saudade, porque a verdade é que, com o decorrer do tempo, parece ir-se avivando, cada vez mais, a tristeza pela falta da nossa querida Alexandrina, pois já não ouvimos a sua voz angélica a aconselhar-nos nas nossas dúvidas, a animar-nos no cumprimento do dever, amando mais e mais a Deus e ao próximo, numa palavra, a termos uma vida mais digna e cristã. E esta saudade de Alexandrina só nos pode ser suavizada por sabermos que os sofrimentos de vítima de nossos pecados e de pecados do mundo, nos últimos tempos, já não podiam ser maiores e hoje gozará, por prémio das suas virtudes heróicas, a maior felicidade, aquilo que S. Paulo, num êxtase sublime e inegável, viu e depois definiu como sendo « o que os olhos humanos nunca viram, os ouvidos nunca ouviram, nem o coração do homem imagina o que Deus tem preparado para aqueles que o amam ».

Palavras de parabéns. Sim, mereceis esses parabéns pelos vossos sentimentos e actos, desde o falecimento da Alexandrina e pelo descerramento do retrato daquela que tanto alindou a vossa igreja. Logo após o falecimento dela, vós mostrastes a vossa dor e a vossa esperança.

Dor pela falta dessa figura extraordinária, a maior glória de Balasar, em todos os tempos, glória que o futuro dirá ser de Portugal e do mundo inteiro.

Vós não sabeis, nós não sabemos, o que Deus criou e acumulou de graças no lugar do Calvário desta freguesia, mas, depois de volvido algum tempo (sem eu querer antecipar qualquer decisão definitiva da Igreja), dir-se-á que foi uma alma mística extraordinária, uma vítima propiciatória, daquelas a quem se referia Jesus falando a uma religiosa nos seguintes termos :

“O Pai celeste olha-as com especial agrado. São o encanto dos Anjos e dos homens. São muito poucas. Destinam-se a servir de defesa diante da justiça do Pai Celeste e a obter misericórdia para o mundo.”

Mostrastes, senhoras e senhores, a vossa esperança, porque se o funeral da Alexandrina foi uma autêntica glorificação da sua vida heróica e santa, quereríeis significar com isso que tínheis a certeza da sua valiosa intercessão por vós lá no Céu.

Sim, aquele sorriso angélico da Alexandrina nos está dizendo que contemos com ela e que não desanimemos nas tribulações da nossa vida. Já dizia o nosso maior poeta que o “caminho da virtude” era “alto e fragoso, / mas no fim, doce alegre e deleitoso” (Os Lusíadas, canto IX, est. 90). Para o Céu só há um caminho, o do dever, o do arrependimento, o das tribulações e cruzes, e a vida e o sorriso de Alexandrina nos estimulam a segui-lo e a abraçá-lo.

Estejamos certos desta intercessão a nosso favor, perante Deus, a quem tanto adorava, e perante a Virgem Imaculada, a quem tão ardentemente amava.

Palavras de agradecimento para vós e para o vosso pároco. O Sr. abade, durante a vida da Alexandrina, foi incansável em dar-lhe diariamente o que ela desejava, o seu querido Jesus (seu único alimento durante treze anos e meio) e, desde o seu falecimento, tem sido incansável em manifestar, por belos artigos na Imprensa e por conversas, as virtudes dessa alma heróica e angelical, que foi a nossa querida e abençoada Doentinha. Deus lhe dê muitos anos de saúde e vida para continuar a dar-nos luz, a fim de que se saiba onde está a verdade e onde está a mentira, para continuar a fazer justiça, porque é um acto de justiça dizer ao mundo quem foi a Alexandrina.

E vós todos, que dum ou doutro modo respeitais e acarinhais a memória da Alexandrina, ficai certos de que ela no Céu não vos esquecerá e, grata como sempre foi, nada vos ficará a dever. Pedi nas vossas dores e alegrias a sua intercessão e, do bom resultado dela, por dever e gratidão, continuai a dar conta ao senhor abade, a quem a autoridade eclesiástica confiou o registo das graças recebidas. »

No final do seu livro Alexandrina o Padre Humberto alude ao episódio do descerramento do retrato ; é na página 366 da 6ª edição. Vale a pena ler o que então escreve :

« A seis meses da sua morte, durante uma solene manifestação, a figura de Alexandrina sorri a todos no grande quadro que foi inaugurado no salão paroquial de Balasar, como um sinal de estima e gratidão por quanto ela havia feito em vida pela terra natal. »

Segundo o Sr. Padre Francisca, o retrato de que aqui se faz menção será o que se pode ver, muito envelhecido, sobre a cama, na casa que foi da Alexandrina.

Mais Cartas

De muitas das cartas que escreveu deixou o Dr. Dias de Azevedo uns rascunhos num caderno de apontamentos existente em Balasar. Registam-se aí :

17 enviadas ao Sr. Arcebispo

4        “       ao Vigário-Geral da Arquidiocese de Braga

5        “       ao Sr. Cardeal Patriarca

5        “       ao Provincial dos Jesuítas, Padre Júlio Marinho

1        “       ao Padre Pinho

1        “       ao Cónego Molho de Faria

Vamos reunir aqui algumas.

A Sua Santidade o Papa Pio XII

« Santíssimo Padre

Com o maior respeito e veneração, venho aos pés de Vossa Santidade entregar um traslado do que enviei ao Senhor Arcebispo Primaz de Braga a respeito duma doentinha da freguesia de Balasar, concelho da Póvoa de Varzim, Arquidiocese de Braga, e que se chama Alexandrina Maria da Costa, solteira, de 41 anos de idade, paralítica há 22 anos, devido a uma mielite lombar originada por, aos 14 anos, saltar duma janela, de 4 metros de altura, para fugir a quem queria lançar-lhe as mãos para a violentar. Aos 20 anos, acamou e, desde então, renovando uma e muitas vezes o seu oferecimento feito a Jesus desde criança, como vítima, os seus sofrimentos vêm aumentando, fora das leis da patologia, suportando-os com a maior resignação e heroicidade, tendo sempre a mais completa caridade com o próximo e o mais evidente amor a Deus. Aos 33 anos completos, desde Outubro de 1938 a 27 e Março de 1942, às sextas-feiras, das 12 às 15 horas, em êxtase contínuo e alheia a qualquer sofrimento ou tortura provocada, sofreu os tormentos da Paixão de Jesus, segundo os desígnios de Deus, terminando esses sofrimentos extraordinários às 3 da tarde por um êxtase em que, em voz alta, pronunciava as palavras dos colóquios que tinha, ou melhor dizendo, lhe era dado ter com o seu e nosso Rei e Senhor.

Já fora dos êxtases, para verificar a fidelidade da cópia das palavras empregadas nesses colóquios, a doentinha procedia, posto que com sacrifício, todas as vezes que disso houvesse necessidade, à correcção dessas palavras, cujo significado por vezes ignorava. Desde 27 de Março de 1942 até hoje, nunca mais se alimentou, vivendo somente da Sagrada Eucaristia. Para se verificar com rigor essa abstinência total de alimentos, foi internada numa Casa de Saúde e entregue ao estudo dum Psiquiatra, que, com o auxílio de 6 pessoas, a vigiaram, de dia e de noite, durante 40 dias, e revezando-se aos grupos de duas, verificando-se que nada comeu, nada bebeu e nada excretou, havendo anúria absoluta, conservando o seu sangue normal nos seus elementos constitutivos, como se verificou pelas análises que lhe foram feitas e estando as suas faculdades mentais lucidíssimas e na mais absoluta normalidade, apesar de ser, diariamente, sujeita a interrogatórios demorados e extenuantes e de serem sempre reduzidíssimas as horas do seu sono nocturno.

Sou médico assistente dessa doentinha desde Janeiro de 1941 até hoje e nunca lhe notei nada digno de censura, mas sempre a maior ansiedade em cumprir com a maior perfeição a vontade de Deus, dando-lhe a maior honra e glória e procurando por todos os meios a salvação das almas. De tudo isto tenho dado informação ao meu querido Prelado. Parece ter chegado o momento de renovar essas informações ao Senhor Arcebispo Primaz e sobretudo à Maior Autoridade da Igreja, e por isso não quero deixar de cumprir esse meu dever.

Beijando com o maior respeito o pé do Santíssimo Padre Pio XII, sou de Vossa Santidade o servo mais humilde e inútil.

Manuel Augusto Dias de Azevedo

6 de Agosto de 1946, dia da Festa da Transfiguração de Nosso Senhor Jesus Cristo. »

Ao D. Abade de Singeverga

« Ex.mo e Rev.mo Senhor D. Abade, Singeverga

Por dever de consciência e para informação, venho declarar a V. Ex.cia que, no pressentimento, pela conversa havida entre nós, em Singeverga, do dia 2 do mês corrente, de que os Srs. Drs. Luís Filipe e Gregório quereriam que a Alexandrina Maria da Costa, de Balasar, fosse transportada para uma Casa de Saúde do Porto, para o respectivo estudo clínico, e desejando a minha opinião da possibilidade dessa deslocação, sem perigo de maior para a doente (que, segundo me disse, está pronta a obedecer, ainda que morresse na viagem), para me isentar de responsabilidades, fui convidar o Sr. Dr. Carlos Lima e o Sr. Dr. Gomes de Araújo para, se fosse necessário, numa conferência, na casa da doente, com os supra mencionados médicos, ser resolvido se seria ou não possível essa deslocação da doente. Responderam-me esses dois médicos que aceitariam com o maior gosto esse meu convite de assistir a essa conferência, declarando-me, principalmente o Sr. Dr. Gomes de Araújo, que também estavam prontos a fazer mais declarações, referentes à doente, e a completar o relatório que fora julgado há anos incompleto pelos teólogos, pedindo também o Sr. Dr. Gomes de Araújo o favor de, sendo possível, estarem presentes os teólogos, a fim de lhes serem dados os esclarecimentos que julgassem necessários. V. Ex.cia julgará o que muito bem entender, parecendo-me que deveriam ser rejeitados (?) todos esses esclarecimentos oferecidos, dados por quem já conhece a doente e atinentes à investigação da verdade, que queremos obter. Saudando V. Ex.cia Rev.ma, sou, com a máxima consideração e estima, o atento, venerador e muito obrigado

Manuel Augusto Dias de Azevedo

Ribeirão, 9 de Agosto de 1953. »

Ao Cónego Molho de Faria

« Há dias escrevi uma longa carta ao Senhor Arcebispo Primaz para lhe dizer que o Caso de Balasar devia ser estudado de novo, porque o estudo feito pela autoridade eclesiástica ficara incompleto.

As palavras talvez não fossem exactamente estas, mas foi este o sentido da minha carta.

É natural que o Senhor Arcebispo me tenha julgado ousado, mas a minha consciência ficou um pouco mais tranquila com esta carta porque ela foi feita pela minha consciência e dela tenho de dar contas a Deus. Fiquei um pouco mais tranquilo e não me preocupa muito a impressão que ela tenha causado.

Sinto-me também obrigado a escrever a V. Ex.ma e, por isso, faço-o pedindo desculpa pelo tempo que o faço perder.

O Caso da Alexandrina, sob o ponto de vista médico, é inexplicável pela Ciência: está longe de ser um caso de anorexia mental. Uma doente de anorexia mental começa logo a perder peso e o da Alexandrina é estacionário.

As faculdades mentais e o aspecto duma doente de anorexia mental impressionam qualquer pessoa no sentido de a classificar imediatamente como diminuída mental ou uma anormal; as faculdades de Alexandrina pelo contrário, são admiráveis pela lucidez, pelo equilíbrio e calma sob todos os pontos de vista.

Uma doente de anorexia mental perde logo as suas menstruações e a da Alexandrina, desde que vive em abstinência total de alimentos (e isto já dura há quatro anos), é normal nas suas menstruações, predominando a abundância da perda de sangue.

Por isso, este caso, sob o ponto de vista médico, é verdadeiramente extraordinário, mostrando uma excepção às leis da Bioquímica. Isto é um autêntico milagre.

Sob o ponto de vista místico, este caso devia ser estudado in loco. O senhor Cónego Molho de Faria não perderia o seu tempo se voltasse a fazer o estudo desde o princípio. Ficaria maravilhado se fizesse o estudo completo e seria honra para V. Exma. Fazer esse estudo; e se não o fizer, há-de sentir remorsos e muita tristeza, deixando esta caso como foi estudado.

Exmo. Senhor: é hora de acertar passo no que se refere à Alexandrina. É a actividade apostólica e a inteligência de V. Excia. Que o reclama, assim como o bem da Igreja e o nome do Senhor Cónego de Faria.

V. Excia. assumiu uma responsabilidade tremenda nesta caso, que traz com ele a missão especialíssima na Igreja e esta missão está a ser perseguida e posta em confusão, porque a persegue e faz confusão. Se este caso é extraordinário, como muitos pensam, e se são autênticas as revelações de Nosso Senhor, a comissão que o estudou tão precipitadamente pode ficar certa de que, se não mudar o caminho, virá a sofrer castigos e a sentir desgostos que nunca desaparecerão neste mundo.

A causa é de Deus e nela contém uma missão especialíssima e por isso julgo que a Autoridade Eclesiástica deve ser prudentíssima e não pode dispensar-se um estudo completo e feito com cuidado.

O nome de V. Excia., e com estas palavras termino esta carta, ficará ligado a este caso ou com muita glória ou com muita sombra.

Pelo seu passado, o nome de V. Excia. é bem digno de ser louvado e não de ser castigado pela justiça implacável da opinião pública futura. Seja V. Excia. juiz do seu nome futuro, porque continua a ser palavra que pode salvar ou perder.

Faço calorosos votos para que esta última palavra do Senhor Cónego Molho de Faria seja gloriosa para o seu nome e de justiça devida à mártir do Calvário de Balasar, que virá a ser reconhecida e proclamada como uma das mais belas almas que o Senhor criou para glória de Deus e salvação dos pecadores.

Sou de V. Excia. o respeitoso e obrigadíssimo

Manuel Augusto Dias de Azevedo. »

Bibliografia

Alexandrina Maria da Costa, a Doentinha de Balasar, Boletim Mensal, passim

AZEVEDO, Manuel Augusto da Costa, «Alexandrina de Balazar e o seu melhor cicerone leigo, o Dr. Dias de Azevedo» in Diário do Minho de 18/02/04

COSTA, Alexandrina Maria da, Figlia del dolore, madre di amore. Quasi una autobiografia, Mimep-Docete, Pessano (MI), 1993

COSTA, Alexandrina Maria, Autobiografia (dactilografada)

SILVA, Jorge M. M. B. da, Vida e obra do Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo, trabalho policopiado

Documentos autógrafos do Arquivo da Alexandrina

Artigos do Dr. Dias de Azevedo publicados em jornais

Testemunho do Dr. Dias de Azevedo no Processo Diocesano

José Ferreira           


[1] É no número 5 do Boletim Mensal (Dezembro de 1957) que o Dr. Dias de Azevedo nos diz que tomou a Alexandrina para madrinha e porquê:

« (…) tinha-lhe pedido o favor de ser minha madrinha no momento em que fosse chamado a prestar contas a Deus. Aceitou o pedido e desde então beijava-lhe a mão quando a visitava. »

[2] O Dr. Dias de Azevedo falecerá quando o Processo estava já a caminho do fim, vendo assim quase concluído um decisivo passo para a beatificação da Alexandrina.

[3] Citado de Jorge M. M. B. da Silva, Vida e obra do Dr. Manuel Augusto Dias de Azevedo, trabalho apresentado como monografia da cadeira de História da Medicina no Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar.

[4] Este médico, que se reformara em 1937, teria na altura já uns 75 anos. No arquivo da Alexandrina, conservam-se duas cartas que em Dezembro de 1944 dirigiu à sua antiga doente. Aí manifesta por ela autêntica veneração. Como se sabe, juntamente com o Dr. Dias de Azevedo, assinou um relatório sobre a estada da Alexandrina no Refúgio de Paralisia Infantil no qual confirma tudo o que afirmou o Dr. Gomes de Araújo.

[5] É esta exigência do Dr. Dias de Azevedo que levará o Dr. Gomes de Araújo a traçar aquele célebre retrato da Alexandrina em que declara:

« A expressão de Alexandrina é viva, perfeita, afectuosa, boa e acariciadora; atitude sincera, sem pretensões, natural. Não há nela ascetismo, nada untuoso, nem voz tímida, melíflua, rítmica; não é exaltada nem fácil a dar conselhos. Fala de modo natural, inteligente, mesmo subtil; responde sem hesitações, até com convicção, sempre em harmonia com a sua estrutura psíquica e a construção sólida de juízos bem delineados em si e pelo ambiente, mas sempre, repetimo-lo, com ar de espontânea bondade que o clima místico que desde há tempos a circunda e que, parece, não foi por ela provocado, não modificaram. »

[6] Traduzido de Cristo Gesù in Alexandrina, p. 114, nota. O Pároco de Chaves conhecia o Padre Pinho, que estava para lá ir pregar. Bem vistas as coisas, ele está a pretender defendê-lo da Alexandrina.

[7] Cristo Gesù in Alexandrina, p. 140, nota.

A oposição do Padre Agostinho Veloso à Alexandrina e ao Padre Pinho chega a assumir aspectos inqualificáveis. Alguém nos disse que ele era «um louco». Mas um louco que publicou livros, e até de real valor, como já pude comprovar.

[8] O Dr. Dias de Azevedo, que já escrevera para o Jornal de Notícias, em 1947, e para O Comércio do Porto, no mesmo ano, escreveu, em 1953, ainda para o Diário do Norte (tendo um artigo deste jornal sido depois transcrito na Estrela do Minho, de Vila Nova de Famalicão) e para o Jornal do Médico.

[9] Op. cit., p. 371.

[10] Cfr. Figlia del dolore, madre di amore, p. 391.

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