1. Aparições do Anjo
Pelo
que posso mais ou menos calcular, parece-me que foi em 1915 que se
deu essa primeira aparição do que
julgo
ser o Anjo, que não ousou, por então, manifestar-se de todo. Pelo
aspecto do tempo, penso que se deveram dar nos meses de Abril até
Outubro – 1915.
Na
encosta do cabeço que fica voltada para o Sul, ao tempo de rezar o
terço na companhia de três companheiras, de nome Teresa Matias,
Maria Rosa Matias, sua irmã e Maria Justino, do lugar da Casa Velha,
vi que sobre o arvoredo do vale que se estendia a nossos pés pairava
uma como que nuvem, mais branca que neve, algo transparente, com
forma humana. As minhas companheiras perguntaram-me o que era.
Respondi que não sabia. Em dias diferentes, repetiu-se mais duas
vezes.
Esta
aparição deixou-me no espírito uma certa impressão que não sei
explicar. Pouco e pouco, essa impressão ia-se desvanecendo; e creio
que, se não são os factos que se lhe seguiram, com o tempo a viria a
esquecer por completo.
As
datas não posso precisá-las com certeza, porque, nesse tempo, eu não
sabia ainda contar os anos, nem os meses, nem mesmo os dias da
semana. Parece-me, no entanto, que deveu ser na Primavera de 1916
que o Anjo nos apareceu a primeira vez na nossa Loca do Cabeço.
Já
disse, no escrito sobre a Jacinta, como subimos a encosta em procura
dum abrigo e como foi, depois de aí merendar e rezar, que começámos
a ver, a alguma distância, sobre as árvores que se estendiam em
direcção ao Nascente, uma luz mais branca que a neve, com a forma
dum jovem, transparente, mais brilhante que um cristal atravessado
pelos raios do Sol. À medida que se aproximava, íamos-lhe
distinguindo as feições. Estávamos surpreendidos e meios absortos.
Não dizíamos palavra.
Ao
chegar junto de nós, disse:
– Não
temais. Sou o Anjo da Paz. Orai comigo.
E
ajoelhando em terra, curvou a fronte até ao chão. Levados por um
movimento sobrenatural, imitámo-lo e repetimos as palavras que lhe
ouvimos pronunciar:
– Meu
Deus, eu creio, adoro, espero e amo-Vos. Peço-Vos perdão para os que
não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam.
Depois
de repetir isto três vezes, ergueu-se e disse:
– Orai
assim. Os Corações de Jesus e Maria estão atentos à voz das vossas
súplicas.
E
desapareceu.
A
atmosfera do sobrenatural que nos envolveu era tão intensa, que
quase não nos dávamos conta da própria existência, por um grande
espaço de tempo, permanecendo na posição em que nos tinha deixado,
repetindo sempre a mesma oração. A presença de Deus sentia-se tão
intensa e íntima que nem mesmo entre nós nos atrevíamos a falar. No
dia seguinte, sentíamos o espírito ainda envolvido por essa
atmosfera que só muito lentamente foi desaparecendo.
Nesta
aparição, nenhum pensou em falar nem em recomendar o segredo. Ela de
si o impôs. Era tão íntima que não era fácil pronunciar sobre ela a
menor palavra. Fez-nos, talvez, também, maior impressão, por ser a
primeira assim manifesta.
A
segunda deveu ser no pino do Verão, nesses dias de maior calor, em
que íamos com (os) rebanhos para casa, no meio da manhã, para os
tornar a abrir só à tardinha.
Fomos,
pois passar as horas da sesta à sombra das árvores que cercavam o
poço já várias vezes mencionado. De repente, vimos o mesmo Anjo
junto de nós.
– Que
fazeis? Orai! Orai muito! Os Corações de Jesus e Maria têm sobre vós
desígnios de misericórdia. Oferecei constantemente ao Altíssimo
orações e sacrifícios.
– Como
nos havemos de sacrificar? – perguntei.
– De
tudo que puderdes, oferecei um sacrifício em acto de reparação pelos
pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos
pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa Pátria, a paz. Eu sou o Anjo
da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai com
submissão o sofrimento que o Senhor vos enviar.
Estas
palavras do Anjo gravaram-se em nosso espírito, como uma luz que nos
fazia compreender quem era Deus, como nos amava e queria ser amado,
o valor do sacrifício e como ele Lhe era agradável, como, por
atenção a ele, convertia os pecadores. Por isso, desde esse momento,
começamos a oferecer ao Senhor tudo que nos mortificava, mas sem
discorrermos a procurar outras mortificações ou penitências, excepto
a de passarmos horas seguidas prostrados por terra, repetindo a
oração que o Anjo nos tinha ensinado.
A
terceira aparição parece-me que deveu ser em Outubro ou fins de
Setembro, porque já não íamos passar as horas da sesta a casa.
Como já
disse no escrito sobre a Jacinta, passámos da Prégueira (é um
pequeno olival pertencente a meus pais) para a Lapa, dando a volta à
encosta do monte pelo lado de Aljustrel e Casa Velha. Rezámos aí o
terço e (a) oração que na primeira aparição nos tinha ensinado.
Estando, pois, aí, apareceu-nos pela terceira vez, trazendo na mão
um cálix e sobre ele uma Hóstia, da qual caíam, dentro do cálix,
algumas gotas de sangue. Deixando o cálix e a Hóstia suspensos no
ar, prostrou-se em terra e repetiu três vezes a oração:
–
Santíssima Trindade, Padre, Filho, Espírito Santo, adoro--Vos
profundamente e ofereço-Vos o preciosíssimo Corpo, Sangue, Alma e
Divindade de Jesus Cristo, presente em todos os sacrários da terra,
em reparação dos ultrajes, sacrilégios e indiferenças com que Ele
mesmo é ofendido. E pelos méritos infinitos do Seu Santíssimo
Coração e do Coração Imaculado de Maria, peço-Vos a conversão dos
pobres pecadores.
Depois,
levantando-se, tomou de novo na mão o cálix e a Hóstia e deu-me a
Hóstia a mim e o que continha o cálix deu-o a beber à Jacinta e ao
Francisco, dizendo, ao mesmo tempo:
– Tomai
e bebei o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo horrivelmente ultrajado
pelos homens ingratos. Reparai os seus crimes e consolei o vosso
Deus.
De novo
se prostrou em terra e repetiu connosco a mais três vezes a mesma
oração:
–
Santíssima Trindade... etc.
E
desapareceu.
Levados
pela força do sobrenatural que nos envolvia, imitávamos o Anjo em
tudo, isto é, prostrando-nos como Ele e repetindo as orações que Ele
dizia. A força da presença de Deus era tão intensa que nos absorvia
e aniquilava quase por completo.
Parecia
privar-nos até do uso dos sentidos corporais por um grande espaço de
tempo. Nesses dias, fazíamos as acções materiais como que levados
por esse mesmo ser sobrenatural que a isso nos impelia. A paz e
felicidade que sentíamos era grande, mas só íntima, completamente
concentrada a alma em Deus. O abatimento físico, que nos prostrava,
também era grande.
2. Silêncio da Lúcia
Não sei
porquê, as aparições de Nossa Senhora produziam em nós efeitos bem
diferentes. A mesma alegria íntima, a mesma paz e felicidade, mas,
em vez desse abatimento físico, uma certa agilidade expansiva; em
vez desse aniquilamento na Divina presença, um exultar de alegria;
em vez dessa dificuldade no falar, um certo entusiasmo comunicativo.
Mas apesar destes sentimentos, sentia a inspiração para calar,
sobretudo algumas coisas. Nos interrogatórios, sentia a inspiração
íntima que me indicava as respostas que, sem faltar à verdade, não
descobrissem o que devia, por então, ocultar. Neste sentido,
resta-me apenas uma dúvida: se não deveria ter dito tudo no
interrogatório canónico. Mas não sinto escrúpulo de ter calado,
porque, nessa altura, eu não tinha ainda conhecimento da importância
desse interrogatório. Tomei-o, pois, como um de tantos a que estava
habituada. Apenas estranhei a ordem de jurar; mas, como era o
confessor que mo mandava e jurava a verdade, fi-lo sem dificuldade.
Mal eu suspeitava, nesse momento, o que o demónio daí ia tirar, para
mais tarde me atormentar com um sem fim de escrúpulos. Mas, graças a
Deus, já tudo passou.
Há
ainda outra razão que me confirma no pensamento de que fiz bem,
calando. No decurso do interrogatório canónico, um dos
interrogantes, Senhor Dr. Marques dos Santos, achou que podia
alongar a lista das suas perguntas e começou por descer um pouco
mais fundo. Antes de responder, com um simples olhar, interroguei o
confessor. Sua Rev.cia tirou-me do embaraço, respondendo por mim.
Lembrou ao interlocutor que ultrapassava os direitos que lhe eram
dados.
Quase o
mesmo me aconteceu no interrogatório do senhor Dr. Fischer.
Autorizado por V. Ex.cia Rev.ma e pela Rev.da Madre Provincial,
parecia ter direito a perguntar-me tudo. Mas graças a Deus que veio
acompanhado pelo confessor. A um dado momento, uma estudada pergunta
sobre o segredo. Senti-me perplexa, sem saber que responder. Um
olhar: o confessor tinha-me entendido e respondia por mim. O
interrogante entendeu também e limitou-se a tapar-me a cara com umas
revistas que tinha diante.
Assim
Deus me ia mostrando que ainda não era chegado o momento por Ele
designado.
Passo,
então, a escrever as aparições de Nossa Senhora. Não me detenho a
escrever as circunstâncias que as precederam, nem as que se lhe
seguiram, visto o Senhor Dr. Galamba ter feito o favor de me
dispensar disso.
3. Treze de Maio
Dia 13
de Maio (de) 1917 – Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco,
no cimo da encosta da Cova da Iria, a fazer uma paredita em volta
duma moita, vimos, de repente, como que um relâmpago.
– É
melhor irmos embora para casa, – disse a meus primos – que estão a
fazer relâmpagos; pode vir trovoada.
– Pois
sim.
E
começamos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à
estrada. Ao chegar, mais ou menos a meio da encosta, quase junto
duma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e, dados
alguns passos mais adiante, vimos, sobre uma carrasqueira, uma
Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol,
espargindo luz, mais clara e intensa que um copo de cristal, cheio
d’água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente.
Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto, que
ficávamos dentro da luz que A cercava ou que Ela espargia, talvez a
metro e meio de distância, mais ou menos.
Então
Nossa Senhora disse-nos:
– Não
tenhais medo. Eu não vos faço mal.
– De
onde é Vossemecê? – lhe perguntei.
– Sou
do Céu.
– E que
é que Vossemecê me quer?
– Vim
para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 a
esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois
voltarei ainda aqui uma sétima vez.
– E eu
também vou para o Céu?
– Sim,
vais.
– E a
Jacinta?
–
Também.
– E o
Francisco?
–
Também, mas tem que rezar muitos terços.
Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido
há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a
tecedeiras com minha irmã mais velha.
– A
Maria das Neves já está no Céu?
– Sim,
está.
Parece-me que devia ter uns 16 anos.
– E a
Amélia?
–
Estará no purgatório até ao fim do mundo.
Parece-me que devia ter de 18 a 20 anos.
–
Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que
Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que
Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?
– Sim,
queremos.
– Ides,
pois, ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso
conforto.
Foi ao
pronunciar estas últimas palavras (a graça de Deus, etc.) que abriu
pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como
que reflexo que delas expedia, que penetrando-nos no peito e no mais
íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa
luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então,
por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e
repetíamos intimamente:
– Ó
Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no
Santíssimo Sacramento.
Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:
– Rezem
o terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da
guerra.
Em
seguida, começou-Se a elevar serenamente, subindo em direcção ao
nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A
circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros,
motivo por que alguma vez dissemos que vimos abrir-se o Céu.
Parece-me que já expus, no escrito sobre a Jacinta ou numa carta,
que o medo que sentimos não foi propriamente de Nossa Senhora, mas
sim da trovoada que supúnhamos lá vir; e dela, da trovoada, é que
queríamos fugir. As aparições de Nossa Senhora não infundem medo ou
temor, mas sim surpresa. Quando me perguntavam se tinha sentido e
dizia que sim, referia-me ao medo que tinha tido dos relâmpagos e da
trovoada que supunha vir próxima; e disto foi do que quisemos fugir,
pois estávamos habituados a ver relâmpagos só quando trovejava.
Os
relâmpagos também não eram propriamente relâmpagos, mas sim o
reflexo duma luz que se aproximava. Por vermos esta luz, é que
dizíamos, às vezes, que víamos vir Nossa Senhora; mas, propriamente,
Nossa Senhora só A distinguíamos nessa luz, quando já estava sobre a
azinheira. O não sabermos explicar e querer evitar perguntas foi que
deu lugar a que umas vezes disséssemos que A víamos vir, outras que
não. Quando dizíamos que sim, que A víamos vir, referíamo-nos a que
víamos aproximar essa luz que, afinal, era Ela. E quando dizíamos
que A não víamos vir, referíamos a que, propriamente Nossa Senhora,
só A víamos quando já estava sobre a azinheira.
4. Treze de Junho
Dia 13
de Junho (de) 1917 – Depois de rezar o terço com a Jacinta e o
Francisco e mais pessoas que estavam presentes, vimos de novo o
reflexo da luz que se aproximava (a que chamávamos relâmpago) e, em
seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira, em tudo igual a Maio.
–
Vossemecê que me quer? – perguntei.
– Quero
que venhais aqui no dia 13 do mês que vem, que rezeis o terço todos
os dias e que aprendam a ler. Depois direi o que quero.
Pedi a
cura dum doente.
– Se se
converter, curar-se-á durante o ano.
–
Queria pedir-Lhe para nos levar para o Céu.
– Sim;
a Jacinta e o Francisco levo-os em breve. Mas tu ficas cá mais algum
tempo. Jesus quer servir-Se de ti para Me fazer conhecer e amar. Ele
quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado Coração.
– Fico
cá sozinha? – perguntei, com pena.
– Não,
filha. E tu sofres muito? Não desanimes. Eu nunca te deixarei. O meu
Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá
até Deus.
Foi no
momento em que disse estas últimas palavras que abriu as mãos e nos
comunicou, pela segunda vez, o reflexo dessa luz imensa. Nela nos
víamos como que submergidos em Deus. A Jacinta e o Francisco parecia
estarem na parte dessa luz que se elevava para o Céu e eu na que se
espargia sobre a terra. À frente da palma da mão direita de Nossa
Senhora, estava um coração cercado de espinhos que parecia
estarem-lhe cravados. Compreendemos que era o Imaculado Coração de
Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, que queria reparação.
Eis,
Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, ao que nos referíamos, quando dizíamos
que Nossa Senhora nos tinha revelado um segredo em Junho. Nossa
Senhora não nos mandou, ainda desta vez, guardar segredo, mas
sentíamos que Deus a isso nos movia.
5. Treze de Julho
Dia 13
de Julho de 1917 – Momentos depois de termos chegado à Cova de
Iria, junto da carrasqueira, entre numerosa multidão de povo,
estando a rezar o terço, vimos o reflexo da costumada luz e, em
seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira.
–
Vossemecê que me quer? – perguntei.
– Quero
que venham aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem a rezar o
terço todos os dias, em honra de Nossa Senhora do Rosário, para
obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes poderá
valer.
–
Queria pedir-Lhe para nos dizer Quem é, para fazer um milagre com
que todos acreditem que Vossemecê nos aparece.
–
Continuem a vir aqui todos os meses. Em Outubro direi Quem sou, o
que quero e farei um milagre que todos hão-de ver, para acreditar.
Aqui,
fiz alguns pedidos que não recordo bem quais foram. O que me lembro
é que Nossa Senhora disse que era preciso rezarem o terço para
alcançarem as graças durante o ano. E continuou:
–
Sacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes, em especial
sempre que fizerdes algum sacrifício: Ó Jesus, é por Vosso amor,
pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos
contra o Imaculado Coração de Maria.
Ao
dizer estas últimas palavras, abriu de novo as mãos, como nos dois
meses passados.
O
reflexo pareceu penetrar a terra e vimos como que um mar de fogo.
Mergulhados em esse fogo, os demónios e as almas, como se fossem
brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que
flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam
juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados,
semelhante ao cair das faúlhas em os grandes (incêndios), sem peso
nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que
horrorizava e fazia estremecer de pavor (deveu ser ao deparar-me com
esta vista que dei esse ai! que dizem ter-me ouvido). Os demónios
distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais
espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em
brasa. Assustados e como que a pedir socorro, levantámos a vista
para Nossa Senhora que nos disse, com bondade e tristeza:
–
Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para
as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a Meu Imaculado
Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e
terão paz. A guerra vai acabar. Mas, se não deixarem de ofender a
Deus, no reinado de Pio Xl começará outra pior. Quando virdes uma
noite alumiada por uma luz desconhecida,
sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o
mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições
à Igreja e ao Santo Padre.
Para a
impedir, virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração
e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados.
Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se
não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e
perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados, o Santo Padre
terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o
Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-Me-á a
Rússia que se converterá e será concedido ao mundo algum tempo de
paz.
Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé, etc. Isto não o
digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo.
Quando
rezais o terço, dizei, depois de cada mistério: Ó meu Jesus,
perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as alminhas todas
para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem.
Seguiu-se um instante de silêncio e perguntei:
–
Vossemecê não me quer mais nada?
– Não.
Hoje não te quero mais nada.
E, como
de costume, começou a elevar-se em direcção ao nascente até
desaparecer na imensa distância do firmamento.
6. Treze de Agosto
Dia 13
de Agosto de 1917 – Como já está dito o que neste dia se passou, não
me detenho nisso e passo à aparição, a meu ver no dia 15, ao cair da
tarde.
Como ainda então não sabia contar os dias do mês, pode ser que seja
eu a que esteja enganada; mas conservo a ideia que foi no mesmo dia
em que chegamos de Vila Nova de Ourém.
Andando
com as ovelhas, na companhia de Francisco e seu irmão João, num
lugar chamado Valinhos, e sentindo que alguma coisa de sobrenatural
se aproximava e nos envolvia, suspeitando que Nossa Senhora nos
viesse a aparecer e tendo pena que a Jacinta ficasse sem A ver,
pedimos a seu irmão João que a fosse a chamar. Como ele não queria
ir, ofereci-lhe, para isso, dois vinténs e lá foi a correr.
Entretanto, vi, com o Francisco, o reflexo da luz a que chamávamos
relâmpago; e chegada a Jacinta, um instante depois, vimos Nossa
Senhora sobre uma carrasqueira.
– Que é
que Vossemecê me quer?
– Quero
que continueis a ir à Cova de Iria no dia 13, que continueis a rezar
o terço todos os dias. No último mês, farei o milagre, para que
todos acreditem.
– Que é
que Vossemecê quer que se faça ao dinheiro que o povo deixa na Cova
de Iria?
– Façam
dois andores: um, leva-o tu com a Jacinta e mais duas meninas
vestidas de branco; o outro, que o leve o Francisco com mais três
meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do
Rosário e o que sobrar é para a ajuda duma capela que hão-de mandar
fazer.
–
Queria pedir-Lhe a cura dalguns doentes.
– Sim;
alguns curarei durante o ano.
E
tomando um aspecto mais triste:
–
Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios por os pecadores, que vão
muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça
por elas.
E, como
de costume, começou a elevar-se em direcção ao nascente.
7. Treze de Setembro
Dia 13
de Setembro de 1917 – Ao aproximar-se a hora, lá fui, com a Jacinta
e o Francisco, entre numerosas pessoas que a custo nos deixavam
andar. As estradas estavam apinhadas de gente.Todos nos queriam ver
e falar. Ali não havia respeito humano. Numerosas pessoas, e até
senhoras e cavalheiros, conseguindo romper por entre a multidão que
à nossa volta se apinhava, vinham prostrar-se, de joelhos, diante de
nós, pedindo que apresentássemos a Nossa Senhora as suas
necessidades. Outros, não conseguindo chegar junto de nós, chamavam
de longe:
– Pelo
amor de Deus! peçam a Nossa Senhora que me cure meu filho, que é
aleijadinho!
Outro:
– Que
me cure o meu, que é cego!
Outro:
– O
meu, que é surdo!
– Que
me traga meu marido...
– ...
meu filho, que anda na guerra!
– Que
me converta um pecador!
– Que
me dê saúde, que estou tuberculoso!
Etc.,
etc.
Ali
apareciam todas (as) misérias da pobre humanidade. E alguns gritavam
até do cimo das árvores e paredes, para onde subiam, com o fim de
nos ver passar. Dizendo a uns que sim, dando a mão a outros para os
ajudar a levantar do pó da terra, lá fomos andando, graças a alguns
cavalheiros que nos iam abrindo passagem por entre a multidão.
Quando
agora leio, no Novo Testamento, essas cenas tão encantadoras da
passagem de Nosso Senhor pela Palestina, recordo estas que, tão
criança ainda, Nosso Senhor me fez presenciar, nesses pobres
caminhos e estradas de Aljustrel a Fátima e à Cova de Iria, e dou
graças a Deus, oferecendo-Lhe a fé do nosso bom Povo português. E
penso: se esta gente se abate assim diante de três pobres crianças,
só porque a elas é concebida misericordiosamente a graça de falar
com [a] Mãe de Deus, que não fariam, se vissem diante de si o
próprio Jesus Cristo?
Bem;
mas isto não era nada chamado para aqui. Foi mais uma distracção da
pena que me escapou para onde eu não queria. Paciência! Mais uma
coisa inútil; não na tiro, para não inutilizar o caderno.
Chegámos, por fim, à Cova de Iria, junto da carrasqueira e começamos
a rezar o terço com o povo. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e a
seguir Nossa Senhora sobre a azinheira.
–
Continuem a rezar o terço, para alcançarem o fim da guerra.
Em
Outubro virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do
Carmo, S. José com o Menino Jesus para abençoarem o Mundo. Deus está
contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a
corda; trazei-a só durante o dia.
–
Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas: a cura de alguns
doentes, dum surdo-mudo.
– Sim,
alguns curarei; outros não. Em Outubro farei o milagre, para que
todos acreditem. E começando a elevar-se, desapareceu como de
costume.
8. Treze de Outubro
Dia 13
de Outubro de 1917 – Saímos de casa bastante cedo, contando com as
demoras do caminho. O povo era em massa. A chuva, torrencial. Minha
mãe, temendo que fosse aquele o último dia da minha vida, com o
coração retalhado pela incerteza do que iria acontecer, quis
acompanhar-me. Pelo caminho, as cenas do mês passado, mais numerosas
e comovedoras. Nem a lamaceira dos caminhos impedia essa gente de se
ajoelhar na atitude mais humilde e suplicante. Chegados à Cova de
Iria, junto da carrasqueira, levada por um movimento interior, pedi
ao povo que fechasse os guarda-chuvas para rezarmos o terço. Pouco
depois, vimos o reflexo da luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a
carrasqueira.
– Que é
que Vossemecê me quer?
– Quero
dizer-te que façam aqui uma capela em Minha honra, que sou a Senhora
do Rosário, que continuem sempre a rezar o terço todos os dias. A
guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para suas casas.
– Eu
tinha muitas coisas para Lhe pedir: se curava uns doentes e se
convertia uns pecadores, etc.
– Uns,
sim; outros, não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos
seus pecados.
E
tomando um aspecto mais triste:
– Não
ofendam mais a Deus Nosso Senhor que já está muito ofendido.
E
abrindo as mãos, fê-las reflectir no sol. E enquanto que se elevava,
continuava o reflexo da Sua própria luz a projectar [-se] no sol.
Eis,
Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, o motivo pelo qual exclamei que
olhassem para o sol. O meu fim não era chamar para aí a atenção do
povo, pois que nem sequer me dava conta da sua presença. Fi-lo
apenas levada por um movimento interior que a isso me impeliu.
Desaparecida Nossa Senhora, na imensa distância do firmamento,
vimos, ao lado do sol, S. José com o Menino e Nossa Senhora vestida
de branco, com um manto azul. S. José com o Menino pareciam abençoar
o Mundo com uns gestos que faziam com a mão em forma de cruz. Pouco
depois, desvanecida esta aparição, vi Nosso Senhor e Nossa Senhora
que me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor
parecia abençoar o Mundo da mesma forma que S. José. Desvaneceu-se
esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora em forma
semelhante a Nossa Senhora do Carmo.
EPÍLOGO
Eis,
Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, a história das aparições de Nossa
Senhora na Cova de Iria, em 1917. Sempre que por algum motivo tinha
que falar delas, procurava fazê-lo com as mínimas palavras, na
ambição de guardar, para mim só, essas partes mais íntimas que tanto
me custava manifestar. Mas, como elas são de Deus e não minhas, e
Ele, agora, por meio de V. Ex.cia Rev.ma, mas reclama, aí vão.
Restituo o que me não pertence. Advertidamente, não reservo nada.
Parece-me que devem faltar apenas alguns pequenos detalhes
referentes aos pedidos que eu fazia. Como eram coisas meramente
materiais, não lhes ligava tanta importância, e talvez por isso se
me não gravaram tão vivamente no espírito. E depois, elas eram
tantas, tantas! Devido, talvez, a preocupar-me com a recordação das
inúmeras graças que tinha para pedir a Nossa Senhora, houve o engano
de entender que a guerra acabava no próprio dia.
Não
poucas pessoas se têm mostrado bastante admiradas com a memória que
Deus se dignou dar-me. Por uma bondade infinita, ela é em mim
bastante privilegiada, em todo o sentido. Mas, nestas coisas
sobrenaturais, não é de admirar, porque elas gravam-se no espírito,
de tal forma, que é quase impossível esquecê-las. Pelo menos, o
sentido das coisas que elas indicam nunca se esquece, a não ser que
Deus o queira também fazer esquecer.
(Memórias da Irmã Lúcia: Versão informática do Santuário de Fátima).
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