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Com o título de “Santa Cruz de Balasar”, publicou o jornal
Propaganda em 18 de
Março de 1932 o artigo abaixo. Estava Balasar no rescaldo do
ataque aos protestantes e o País apenas a meses do Estado Novo.
Mas veja-se o escrito que nos vai merecer depois algumas
considerações.
Há
cem anos – vai fazê-los em Junho – que se deu o milagre da Santa
Cruz de Balasar.
Ali
apareceu a Cruz gravada na terra. Foi um acontecimento da época;
um devoto mandou construir uma capelinha, em redor da Cruz, que
ainda se vê no chão; e todos os anos ia ali uma romaria de povo
prestar culto à Santa Cruz de Balasar. Constituiu-se depois uma
confraria com o encargo da festividade.
Gomes de Amorim, no seu romance As Duas Fiandeiras,
fala-nos do acontecimento e da festa anual. A nossa pescaria, a
pescaria poveira, também ia ali na sua romagem, não só no dia da
festa como noutros dias em
que
a tempestade fazia lembrar ao nosso pescador as promessas à
Santa Cruz para um bom salvamento; e o poveiro, que era pobre
mesmo nas épocas das grandes farturas, em vez de expor, de levar
quadros votivos, esculpia as suas marcas, as marcas das suas
redes e aprestos marítimos, na porta da capelinha, como um
registo dos seus brasões de trabalho…
Em
1931 não houve festa; a confraria preferiu gastar dinheiro com a
reforma da capela, que o tempo deteriorara, e com outros
melhoramentos que agora se vêem: um escadório, uma porta para o
caminho, etc.; e pensa este ano em promover uma grandiosa festa
centenária à Santa Cruz, comemorando assim o notável
acontecimento de há cem anos.
E
nós, que vemos os acontecimentos pelo lado histórico que o
regista, aqui estamos a auxiliar a comissão na propaganda da
grade festividade, que chame muitos forasteiros àquela linda
terra que o Este beija e fertiliza, àquela linda povoação filha
da “Cividade” de Bagunte, àquela linda terra cujos lugares nos
lembram “vilas” romanas, um passado tão distante e tão honroso…
Oh,
se eu fizesse a história gloriosa de Balasar, cujo nome é uma
homenagem ao grande general de Justiniano, o célebre Belisarius!
História gloriosa dos seus lugares – Telo, Gresufes, Escaris e
Vela; que lhe pertencia o couto de Macieira; que são de Balasar
os fidalgos do Casal, e que talvez por ali tenha recordações de
destaque o célebre “Magriço”, um dos “Doze de Inglaterra” e que
Camões sublimou nos seus Lusíadas!
* *
*
O
milagre de Balasar foi em Junho – quando a esquadra liberal se
preparava com destino às praias minhotas. Em Julho é outro
centenário que se comemora – o do desembarque dos “Bravos do
Mindelo”.
A
Cruz de Balasar parece ter sido uma revelação: “Descrentes,
homens de pouca fé, a Cruz vos avisa que a opressão miguelista
expira já e os vossos sofrimentos também, porque a bandeira da
Liberdade acaba de subir ao topo e em breve a vereis entre vós!”
Depois cantou Gomes de Amorim:
Não
morre a Liberdade; a desventura
Fá-la às vezes ceder à tirania;
Mas, por maior que seja a noite escura,
Sempre a ela sucede o claro dia!
B.L.
(Baptista de Lima?)
Observações
A informação sobre a não realização da festa em 1931 e os
preparativos para a festa centenária é importante, pois nos
garante que estava viva a devoção à Santa Cruz. O
Propaganda
não escreveu depois nada sobre essa festa centenária. Nem
qualquer outro periódico poveiro, que saibamos.
Será o jornal
Propaganda
que alguns anos a seguir publicará
um longo estudo sobre a Santa Cruz.
A ligação de Balasar à Cividade de Bagunte é uma ficção que
nenhum documento garante. Aliás, sabe-se muito mal como é que a
palavra Balasar chegou a nome da freguesia.
Entre o Belisarius, general, e o Belsar que terá dado origem ao
topónimo Balasar não há mais que uma semelhança ocasional de
nome: como há muitas Marias na Terra, também haveria bastantes
Belisários.
Quanto a relacionar os Grã-Magriços com o herói dos Doze de
Inglaterra, é puramente gratuito.
Os fidalgos do Casal são mencionados na
Corografia
Portuguesa, mas não
sabemos deles mais nada.
A evocação dos Mindeleiros cremos que é razoável, mas a nosso
ver por razões que não as mencionadas. Ao contrário do
articulista, supomos que a aparição se orientava no sentido de
dar alento aos católicos, que o Liberalismo vencedor ia tratar
mal.
Importante e pouco valorizada em Balasar a informação sobre as
marcas dos pescadores poveiros, as siglas. Por isso,
reproduzimos uma página do livro de A. Santos Graça
Inscrições
Tumulares por Siglas que
supomos que dá um registo fiel das marcas que se viam na porta
da capela da Santa Cruz.
Em boa verdade, o que o autor pretendeu, com certeza, foi criar
uma oportunidade para se manifestar contra a ditadura que
precedeu o Estado Novo, para gritar o seu desejo duma liberdade
que ele (se se trata de Baptista de Lima) aliás não usara bem
quando a teve.
De lembrar também que se está a um ano da vinda do poveiro P.e
Leopoldino para Balasar.
Prof. José Ferreira |