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SENTIMENTOS DA ALMA

1947

Agosto

1 de Agosto de 1947 - Sexta-feira

Invoco os auxílios do Céu; sem eles não poderei ditar. O que tenho sofrido; só o mesmo Céu, só Jesus é conhecedor! Que mar de dor! E sinto que de nada me tem aproveitado tanto sofrer. Quanto mais sofro, menos tenho que dar. Quando sentia que os meus sofrimentos não chegavam, junto de Jesus, e com o meu muito sofrer não lhos oferecia como devia, dizia-Lhe: vede, Jesus, vede, no meu coração, por quem eu sofro, nele vede a quem eu amo, ou melhor, meu Jesus, a quem desejo amar; assim fico certa de que não tento enganar-Vos e de que sabeis a verdade, que sempre quero ter em meus lábios. Tudo me foge, tudo se apaga. Os dias passa, os sofrimentos aumentam, e eu cada vez me sinto mais indigna de Jesus. E Ele a querer-me cada vez mais pura, mais digna de O possuir. Tenho medo de falar de mim, dos meus sofrimentos, de toda a minha vida. Tenho medo de todos, tenho medo das minhas trevas, de tão medonha cegueira; morri nelas, e esta morte a elas se colou, e não se descola mais. Não sei dizer o meu martírio. Se eu falasse de Vós, do Vosso amor; mas falar de mim e de quanto sofro, quanto me custa, ó amor da minha alma! Bendita seja a cruz que me dais.

Tinha o meu corpo em dores agudíssimas, a febre a grande altura, e mesmo assim não fui poupada pelo demónio; assustou-me, por duas vezes, com um pequeno intervalo, de um ao outro. Vestiu-me e revestiu-me de todas as maldades, e colocou-me num mundo das mesmas maldades. Tudo era desprezo e aborrecimento ao bem, prazer e loucura pelo mundo. travou-se a luta com as suas vergonhosas lições. Gritei por Jesus e pela Mãezinha: não posso nem sou nada sem Vós; acudi-me; não quero pecar, prefiro o inferno; se hei-de ofender-Vos, dai-mo já, meu Jesus; sou a Vossa vítima.

Não ouvi nem vi quem me defendesse., mas cessou a luta. Ficaram os espinhos muitos penetrantes, provocados pela lembrança, se teria pecado, mas, tempo depois também desapareceram. Jesus não deixou de velar por quem só a Ele quer pertencer. Tive alegrias, que logo morreram e espinhos, que sempre me ficaram a ferir. Tudo recebi como mimos de Jesus, tudo Lhe ofereci e agradeci do meu coração. Muito obrigada, meu Jesus; fazem tão bem à alma as humilhações! Para mim o Vosso divino amor, e para Vós toda a glória, meu Jesus. Continuo a sentir a chagas, a coroa de espinhos e a lança.

Ontem, logo de manhã, encostada ao meu coração, quase em forma de cruz, principiei a sentir e a ver a esponja. A minha sede aumentou, dizia para Jesus: é de Vós que eu tudo recebo, são as almas que eu quero dar-Vos. Era já quase noite e eu a arder nesta sede; e vi Jesus, de mãos atadas, cordas ao pescoço e à cinta, rodeado de malvados. Trouxeram-Lhe uma cruz, que Lhe colocaram, aos Seus ombros divinos. Ele inclinou-se, inclinou-se com tanto peso, quase chegava com o Seu Santíssimo rosto à terra. Isto não era em mim, e veio para mim. Que pena e dor eu senti; levou-me à agonia do Horto. Quando lá sofria em tanta amargura, sem nenhuma vida sem nenhum conforto, transformou-se o Horto num formoso jardim, todo rodeado de loiro trigo, aos molhos. Que grande e formosa seara! No meio do jardim estava ao alto uma cruz; no centro dela um coração; não sei com que estava preso. Vinham do alto raios de fogo, que passavam por dentro desse coração, aberto dum lado ao outro, e iluminavam tudo. Do pé da cruz, saíam fortes pés de açucenas que cresceram e abriram formosas quase até aos braços da cruz. Isto foi visão; não se passou em mim, mas senti-me ferida por aquele fogo, senti-me outra abrasada nele; com a alma muito confortada, fiquei com mais vida.

Algum tempo depois, vi-me num grande bosque, rodeada de feras, grandes, pequenas, mas todas feias, aterradoras. Pensei ir ter com o demónio algum combate, por já ter assim acontecido. Mas não; pouco depois, vi todas aquelas feras a correrem à minha frente, e não sei quem atrás delas com grandes chicotes a chicoteá-las. Eu fiquei num campo grande, libertada; tinha tudo por minha conta.

Hoje de manhã, vi Jesus a ser despido até à cinta, e, depois, preso à coluna. Jesus era maltratado, estava muito triste; com que modos bruscos O despojavam dos Seus vestidos! Até aqui foi só com Ele; e, depois, os açoites foram sobre o meu corpo. Que chuva deles eu senti caírem! Do caminho do Calvário nada mais sei dizer, nem da maior parte do tempo da montanha. Era um mundo de sofrimentos indizível, não sei dizê-los; a cegueira do meu espírito não me deixou compreendê-los. Pouco tempo antes de Jesus agonizar, vi uma alma subir por uma escada que estava posta à cruz; vi que ela subia com muito custo. Subiu, subiu e foi meter-se na chaga do Coração de divino Jesus e desapareceu. Vinham sempre do alto uns raios de fogo que trespassavam o mesmo Divino Coração. Logo fiquei a sentir Jesus, em mim crucificado, e eu crucificada com Ele, a sentir o Seu Coração transformado no meu, e aquele fogo transformou-se numa lança, que nos atingia os dois; era lança só de amor. Logo fiquei a sentir o mesmo sofrimento indizível e então todas as chagas abertas, a coroa de espinhos, o correr do sangue, o fim da vida; e assim expirei a sentir que voou de mim uma vida como um sorriso para Deus. Nesta morte passou-se um bom pedaço, sem que Jesus viesse.

― Minha filha, Minha filha, é doloroso o teu martírio, é difícil o teu Calvário; já quase não podes, oprimida, com tão pesada cruz. Tem coragem! É martírio da salvação, é Calvário de vida, é cruz de amor. Pedi-te muito, porque muito sou ofendido. Sofre assim, para não veres o Meu divino Coração ferido. Sofre contente. Ai do mundo, sem o martírio das Minhas vítimas! Pobre mundo, sem a imolação da Minha maior crucificada! Não posso, filha querida, tirar o braço do Meu Eterno Pai a escora que o sustenta. Deixa-te crucificar, alegre, sempre alegre.

― O braço cai, o braço cai. O mundo perde-se, as almas condenam-se. Ó meu Jesus, ó meu Jesus, quero sofrer, e não sei sofrer; quero a alegria, e não sei ser alegre; quero tudo por Vós para acudir às almas, e não sou capaz de nada, tende dó, tende compaixão, e, momento a momento, menos digna de Vós.

― Se tens confiança em Mim, Minha filha, confia no que te digo. Sabes sofrer, sabes sofrer e muito tens para Me dares. Amas-Me, amas-Me. O teu esforço, para te tornares digna de Mim, é amor, e depressa te vais corrigindo dos teus defeitos. Quanto mais queres vir para Mim, mais para Mim voas. Tem coragem, tem confiança.

Houve um intervalo de silêncio, e, depois, continuou Jesus.

― A tua vida vai-se tornando dia a dia, Minha filha, cheia de luz, não só para aqueles que a têm estudado e estudam, mas também ainda venham a estudá-la. A mesma luz vai servir de confusão, de remorsos a alguns daqueles que a não estudaram como deviam. É a vida de Cristo. A visão, que tiveste ontem, sou Eu em ti a salvar as almas. As flores, que rodeavam a cruz, são aquelas almas, que por ti vêm a Mim, puras e abrasadas de amor. A seara do trigo loiro são os teus sofrimentos, tudo quanto semeias é a colheita dos pecadores. Feriu o amor o Meu divino Coração; é o amor que numa só união fere o teu. É revestido de Mim, com os Meus méritos, que salvas as almas. Os teus sofrimentos em Mim são os sofrimentos de Cristo. Têm um valor infinito.

― Ó meu Jesus, queria aqui, neste ponto, desabafar, mas não é Convosco que eu desabafo; será com a querida Mãezinha, se voltar a ter a dita de falar com Ela; se não dizei-Lhe Vós as mágoas do meu coração, o que me julgo diante Dele e quanto A desejo amar.

― Volta a falar contigo. Filha querida; desabafa com Ela; nada temas; confia em Mim. O teu Calvário de hoje é já uma realização das Minhas divinas promessas. Não te disse Eu que não chegavas a não saber explicar o que sentias e sofrias? Vês como se realiza o que diz Jesus? Recebe agora a gota do Meu divino Sangue para reparares as forças perdidas pela dor e receberes vida para a contínua imolação e amor. O teu martírio é amor, só amor. Vou unir os nossos corações.

Jesus tomou o Seu divino Coração; no centro trazia o tubo do amor que infundiu no meu; passou a gotinha de sangue, e, por alguns momentos, passou amor. Senti como se me caíssem os braços e eu caísse desfalecida. Jesus veio como que acudir-me, bafejou-me, acariciou-me, e disse-me:

― A tua vida é um milagre divino, e o mesmo milagre tenho que operar para aguentares com a força deste amor. Coragem! Tu vives para as almas; vai salvar as almas. És fonte de vida, és fonte inexaurível de salvação. A tua vida é a Minha. A alma, que hoje viste subir à cruz e perder-se em Mim, foste tu mesma. Feriu-te o amor, perdeste-te para Eu aparecer, deste a vida para dares vidas. E foi Comigo e em Mim que te perdeste; é por isso que és a Minha vida Coragem, coragem!

― Obrigada, meu Jesus; ensinai-me a amar-Vos, ensinai-me a sofrer.

2 de Agosto de 1947 - Primeiro sábado

Que choro na minha alma! Fiquei logo assim, ontem, depois do colóquio com Jesus. É tão grande e de tal forma o sofrimento que sinto, que, hoje, de manhãzinha, sem querer, sem saber como, falei comigo mesma, e disse: “Não me obriguem a dizer os sofrimentos da minha alma, que eu não sei, não os conheço, tenho medo”. Só depois é que reflecti que era o meu coração que falava.

Num mundo de variáveis amarguras, esperei a chegada do meu Jesus, e preparei-me para O receber bem, o melhor que pude. Recebi-O, e não demorou muito tempo que Ele transformasse o estado da minha alma, mudando as amarguras em suavidade e doçura.

― Minha filha, sofrer é amar, viver na cruz é amor, amar o sofrimento, é amar Jesus e as almas, é subir ao mais alto grau de amor. A tua cruz é resplendorosa, é cruz de redenção. Ó Minha filha, se soubesses quanto necessito dos teus sofrimentos para reparar-Me! Deixa-Me desabafar. Olha como me tratam alguns sacerdotes.

Quando Jesus disse isto, vi abrir-Lhe o peito com um instrumento cortante; parecia uma espada. Depois de um grande golpe, de cima abaixo, começaram a cravarem-Lhe em Seu divino Coração punhais e mais punhais. Como Jesus sangrava! Acudi logo:

― Isso não, meu Jesus; deixar-Vos sofrer assim, não é para o meu coração de filha.

― Ó filha amada, ó filha amada, deixa-Me então crucificar-te.

Colocou-me Jesus sobre a cruz, e foi Ele mesmo a bater nos cravos; crucificou-me com doçura. Os sofrimentos de Jesus desapareceram, e eu fiquei na cruz, bem crucificadinha. Ele continuou:

― Vive assim, filha amada, para não caírem no inferno os sacerdotes, que tão mal Me tratam; os Meus amigos ou que deviam sê-lo. Eles não só renovam a Minha divina paixão, mas consentem que outros a renovem, recebendo-Me sacrilegamente. Dá-Me por eles, durante este mês, 5 horas por dia do teu sofrimento. Oferece-Mo tu, para que não caiam já no inferno. Eles não têm dó de Mim, não vêem o mundo com toda a sua luxúria e desonestidade; não vêem as almas a cometerem contra Mim os mais horrorosos crimes. E elas, e eles que deviam ser Meus amigos. Dá-Me o teu sofrimento por eles.

― Aceitai-O, desde já, Jesus, fazei de mim o que quiserdes; poupai-os ao inferno.

― Minha filha, diz ao teu Paizinho que por ti lhe dou o Meu divino Coração com todo o meu amor, com todas as minhas graças. Que tome para ele o que quiser, e que tire para cada alma tudo o que quiser. Não lhe posso dar maior prova de amor e do Meu contentamento para com ele. Criei-o para Mim, criei-o para as almas, e dou-lhe o que quero que ele dê às almas. Coragem, coragem, coragem e confiança. Diz ao teu médico que a fidelidade dele ao Meu chamamento a este Calvário para cuidar da Minha divina causa e cuidar de ti, atraiu para ele e para todos os que lhe são caros e com ele trabalham todo o Meu divino amor, todas as Minhas graças. Dei-lhe a maior honra, a maior glória que lhe podia dar na terra. Diz-lhe que o esperar humilhado e confiado é ter a vitória certa. Minha Mãe Bendita, vem consolar já a Nossa filhinha crucificada.

Veio a Mãezinha, tomou-me em Seus braços e comigo a cruz. Principiou a calentar-me, acariciar-me e beijar-me as chagas.

― Ó Mãezinha, não faças isso; suavizai-me o meu sofrimento, mas não façais coisas que me humilhem e o que o mundo lhe possa dar outro sentido. Suavizai-me a dor, mas sem isso. Vós sois a Mãe de Jesus; a filha do Padre Eterno, a Esposa do Espírito Santo, a Rainha do Céu e da terra, e eu uma criatura Vossa, filha do Vosso Jesus. Quem sois Vós e quem sou eu, para me tratardes assim? Vós bem sabeis, querida Mãezinha, quanto me sinto pequenina, na Vossa Santíssima presença.

Quantas vezes Vos tenho dito que não sou digna de beijar, não só os Vossos Santíssimos pés, mas também o chão, não onde eles se pousassem, mas onde eles fizessem sombra. Jesus o vê e Vós também como me sinto pequenina, diante de tanta grandeza. E também vedes quanto sofro, por saber que dizem que quero ser tão grande como Vós e que contra Vós proferi heresias. Ó Mãezinha, ó Mãezinha, perdoai-me; se o fiz, não o compreendi, não soube que Vos ofendi.

Acudiu Jesus e com a Mãezinha; acariciaram-me mais doce e fortemente.

― Não Me ofendeste, não, Minha filha, digo deles o que disse Jesus na cruz: não sabem o que fazem; pobres que nada compreendem!

Voltou a acalentar-me e a bafejar-me com toda a doçura, e disse-me:

― Leva o Meu amor e o de Jesus, leva toda a Minha ternura aos que amas, te amparam e rodeiam. Dá-o ao Meu Padre Humberto, ansioso dos Meus mimos. Leva para todos as ternuras, o amor do Meu Santíssimo Coração e do Meu Jesus. Diz-lhes que junto vai toda abundância das Nossas graças.

Disse Jesus:

― Coragem, Minha filha; deixa falar os homens. És redentora, porque em ti tens O Redentor; tens com Ele poder infinito. És poderosa com Minha Bendita Mãe; fiz-te poderosa com Ela, porque, à semelhança Dela, o mundo te entreguei. És a Nossa vítima, pequenina violeta, és tudo com Jesus, és tudo com Maria. O Céu é dos humildes. Coragem, coragem!

― Obrigada, querida Mãezinha; dai-me o Vossa amor, dai-me a Vossa paz, tranquilizai-me o coração para que nessa paz e amor possa subir até Vós. Ó Jesus, ó Mãezinha! Ó Jesus, ó Mãezinha! Assim Os deixei fugir e fiquei na minha cruz.

8 de Agosto de 1947 - Sexta-feira

Cavo a minha sepultura, cavo a sepultura mundial. E sinto-me tão ferida com esta nojenta escavação! O coração sangra; as chagas, as feridas dos espinhos, todo o meu ser é feridas e sangue. Sinto em mim um olhar, que não pode ver esta sepultura tão podre. Não posso vê-la, meu Jesus, não posso vê-la nem estar assim ferida e em sangue. Ó meu Deus, não posso e quero estar a sangrar, a dar o meu sangue, gota a gota. Morrer para dar a vida a esta terra podre, e esta massa nojenta. Jesus, que fome eu tenho, e esta fome é de Vós; enchei-me, saciai-me; este bem que eu sinto, só Vós o podeis encher.

Ninguém me satisfaz; nas criaturas não encontro alegria nem conforto; Vós, só Vós, vinde, Jesus, encher-me e confortar-me; Vós, só Vós sois a minha alegria e a minha paz. Chamo-Te, Jesus, procuro-Te, não Te encontro, não me falas, ó Jesus, ó Jesus, onde estás Tu? O meu peito é rasgado, golpe sobre golpe; sinto como se em minhas mãos tivesse o coração como uma bola de sangue a mostrá-lo a quem o feriu; mostro-o sem obter resultado; não têm de mim compaixão. Fala, de dentro dele, uma voz dorida: “não há dor igual à minha dor”.

Vem um espinho e outro espinho, uma dor e outra dor, e, por vezes, sinto a revolta da natureza, um rápido momento, de querer fugir à cruz. Mas não quero; tudo isto me serve para mais sofrer; quero ser perfeita e não sou, não quero magoar o meu Jesus e estou sempre a magoá-Lo. Que miséria, que fragilidade a minha! Quero esconder a minha vida, e não posso. Não queria que soubessem o que Jesus na Sua bondade infinita faz em minha alma, e não me deixa ocultar. Que horror! Oh! quanto sofro! Queria perder mundos e mundos, se os possuísse, e nada se saber. Ó minha cruz bendita tu sejas, e bendita seja a vontade do meu Jesus. Morra o meu querer e a minha vontade, se alguma coisa existe. Perdoai-me, ó meu Jesus, se Vos ofendi. Quanto mais profundos são os golpes, quanto mais no íntimo do coração e da alma me calam os espinhos, mais atracção eu sinto para O meu Jesus. Quantas vezes O quero beijar e abraçar com toda a Santíssima Trindade e a Mãezinha querida, mesmo quando as contrariedades aumentam, e as humilhações me esmagam e oprimem; quando os sofrimentos e a falta de forças não me permitem realizar os meus desejos, satisfazer as minhas ânsias, só com o pensamento digo: Jesus, a Vós me entrego; abraça-Vos e beija-Vos o meu coração e a minha alma; são estes que Vos dizem e fazem tudo; eu não posso. E assim, entrego a Jesus, fico no meu sofrer, fico como que adormecida ou morta na dor, mas a sentir e a viver a dor. Tudo isto é por amor, sem sentir que amo.

A justiça divina, a ira do Senhor vem tantas vezes, a cair sobre mim, vem mesmo a esmagar-me, e, não sei porquê, volta a subir sem me deixar ferida. Eu estou cansada de ver tanta justiça, mas outro cansaço maior sinto ainda, por ver que essa justiça tem que ser aplicada. A minha cruz, a minha cruz, que tanto pesa, quanto me custa levá-la, e não quero nem posso caminhar sem ela; amo-a, amo-a mesmo sem amor.

Ontem, logo de manhã, gravaram-se na minha alma Jesus com os Seus Apóstolos. Jesus via aproximar-se a morte, e, quase sem poder com aquela separação, dizia: é chegada a minha hora, vou morrer; parto, mas fico convosco. E o Coração divino de Jesus ardia sem amor. Passavam-se as horas, o horror dos sofrimentos aumentava e o amor crescia também. Eu sentia, como se o meu peito fosse uma fornalha, o coração uma caldeira sempre a ferver sobre essa fornalha; quanto mais fervia mais deitava fora, quanto mais transbordava mais enchia. Jesus fitava a Mãezinha, voltava a fitar os Apóstolos, e, numa dor muita profunda, murmurava: tenho que deixar-Vos, não posso separar-Me de Vós; Eu vou, mas fico; prende-Me a Vós o Meu amor. E os laços do amor de Jesus enleavam-se, mais e mais, no Coração Santíssimo da Mãezinha e dos Apóstolos. Fui para a ceia, todas as palavras e sorrisos de Jesus eram amor. Se eu soubesse falar deste amor! Todo Ele era amor, amor, só amor, amor a enfrentar maldade e ingratidão. Judas, já não era Judas, já se via nele um verdadeiro demónio. Fui para o Horto, a minha alma sobre ele chorava amargamente, chorava com o rosto em terra, e, com o rosto em terra, senti abrir-se-me o coração e regar o solo com todo o meu sangue; quase me senti agonizar em tanta dor e amargura.

Hoje, não fui eu que senti o Calvário, foi Jesus que o seguiu dentro do meu peito e do meu coração que se representaram as ruas da amargura. Como eu sentia Jesus! Quanto me custou Ele caminhar tão desfalecido, cair tantas vezes banhado em suor e sangue, coberto de feridas e cercado de pungentes espinhos em Sua Sacrossanta Cabeça. Maldito seja o pecado; em que estado ele pôs Jesus! Falha-me o coração, por não saber compreender nem dizer os sofrimentos de tão penosa viagem. No cimo da montanha, então já era eu que sofria com Jesus; era Ele em mim, era eu Nele; todas as Suas chagas eram minhas, e minha foi a Sua crucifixão; era meu e Dele o sangue que no alto da cruz derramamos; era Dele e meu o amor que a toda a humanidade se estendia. Mas oh! que amor tão mal correspondido!

Com Jesus tudo me foi presente; vi o passado, o presente e o futuro. Que mundo de tanta maldade! Que Calvário de tanta agonia! Ver tanto sangue derramado, inútil para tantas almas. Assim agonizei, e Jesus comigo. Senti sair de mim a Sua vida; fiquei como morta à Sua espera. Ele demorou, mas principiou logo a enlear, a prender o meu coração a um mundo de corações; incendiou-me o peito num fogo abrasador, e disse-me:

― Minha filha, é com as cadeias do Meu divino amor que Eu te prendo aos corações e às almas. Coragem! Quer no Calvário quer na cruz, és o amor, és a vida, és a salvação dos pecadores. Eu estou contigo, e assim és e serás sempre uma cruz de redenção. A tua vida é de maravilhas e encantos divinos. O teu sofrimento é uma salvação contínua. Ensinas às almas a resignação, a caridade e o amor; és escola de virtudes; é por isso que Eu quero que muitas almas, que o mundo aqui venha aprender.

― Ó meu Jesus, ó meu Jesus, estou cheia de defeitos. As almas aprendem em mim as impaciências, os maus modos e tantas coisas, que lhes dou mau exemplo, e Vos desgostam a Vós. Perdoai-me, vede como estou triste pela minha má edificação, por não ser perfeita e aceitar tudo com alegria. Desgostei-Vos, Jesus? Estais triste comigo?

Jesus sorriu-se com a doçura, e, depois de um intervalo de silêncio, disse-me:

― Não estou triste, não Minha filha, compreendo-te bem. Queres escondimento. Mas olha; para ser mais perfeito, entrega-te a Mim, e obedece em tudo, na certeza que em tudo fazes sempre a minha divina vontade. Não te preocupes com os teus defeitos; quanto mais perto está o sol, mais perto está a luz. Quanto mais te aproximas de Mim, mais vês a poeira das tuas faltas, com os raios do Meu sol divino. Eu vou pedir-te, Minha vítima amada, combates com o demónio; preciso de grande reparação; aceitas?

― Ó meu bom Jesus, e se Vos ofendo? Eu só os temo com receio de Vos ofender.

― São dolorosos, são, Minha filha, mas mais dolorosos ainda, são os espinhos que vêm ferir-Me. Que crimes horrorosos. Horrorosos têm que ser os combates. Mas não Me ofendes; Eu não o permito. Previno-te, desde já; o maldito vai atormentar-te, que estou revoltado contra ti, que fui Eu que te castiguei, mas não fui. Foi ele que veio dizer-Me que conseguia a tua desesperação, a tua revolta contra Mim, se Eu o deixasse espancar-te e com a cruz. Como Eu via a consolação que Me ias dar e que nada de culpa havia em ti, consenti. Arrancou-te dos braços, mas sem te tocar, a cruz, com a Minha imagem crucificada e atirou-te com ela fortemente. Disse-lhe: “Basta”; e ele fugiu. Se soubesses, Minha esposa amada, quando de novo, Me abraçaste e repetiste muitas vezes: meu Jesus, por Vosso amor; a consolação que deste ao Meu Divino Coração, que alegria e gozo seria o teu! Que furor e raiva a do maldito! Se Eu o deixava assaltar-te, num momento, tirava-te a vida. Vem agora ao teu alimento, à vida que dás às almas, a gota do Meu divino Sangue.

Jesus colocou, no meu coração, o mesmo tubo dourado; depois, uniu o Seu divino Coração, caiu a gotinha de Sangue, e ficou, por algum tempo, a infundir-me amor.

― Enche-te, enche-te, Minha filha, e dá às almas este amor, esta doçura e carinho.

― Aceitai, Jesus, tudo o que eu Vos possa dar, que Vos console, e tudo que Vos possam dar os que me são queridos.

― Espalha por todos este amor, porque a todos amo loucamente. Filha querida, filha querida, repara bem, fita a cruz, vai para ela, vai com o teu sorriso, ama-a, olha as almas, acode-lhes; olha os pecadores, salva-os. Vai, vai com amor. Vou contente, meu Jesus; acompanhai-me sempre.

― Muito obrigada, muito obrigada, meu doce amor; sou a Vossa vítima.

15 de Agosto de 1947 - Sexta-feira

Estou cansada de tanto dizer da minha vida. Não poderei, Jesus meu, ocultá-la e escondê-la para todos, todos, para que ninguém saiba de mim e do que em mim se passa? Deitai-me a Vossa divina mão, meu doce Jesus; eu não posso levantar-me; que tristeza tão profunda me invadiu o coração! Ai, Jesus, saber-se a minha vida e eu sem ter querer nem vontade, sentir a necessidade de desaparecer! Se pudesse apagar-se toda a minha vida sem prejuízo da glória de Jesus e bem das almas! Ai tantos espinhos na minha cabeça e no meu coração! Que chuva de sangue eu sinto e vejo cair das feridas por eles causadas! As chagas estão abertas; sinto que elas se têm aberto e alastrado tanto; parece-me que o coração, as mãos e os pés já não têm lugar para maiores aberturas. O que eu sofro! O que sente a minha alma! É tal o medo e cansaço que sinto por ter de dizer as coisas da minha vida, que me sinto morrer, e tenho que morrer. E eu que não tenho querer, nem posso ter querer, não queria morrer desta forma.

Meu Jesus, não sei dizer melhor; estou tão ceguinha, nada vejo e nada sei dizer. Ó minha cruz, minha amada cruz, quanto eu te quero! O que vejo eu na minha cruz? Vejo amor, mas amor sem limites, um amor sem igual; e vejo a dor, mas uma dor que encerra todas as dores; é um conjunto de dores. E eu abracei a minha amada cruz, e este abraço foi eterno. Sinto, como se ela uma vez ou outra me escapulisse dos ombros, mas é por me parecer não poder mais; sinto deixá-la cair por vontade. Isto é o meu desfalecimento. Eu quero-a, eu amo-a o meu abraço eterno está dado. Sinto o coração tão preso a ela que não pode separar-se; é cruz e coração, é coração e cruz, é uma só coisa; amor, dor e cruz, é minha, quero-a por Jesus e pelas almas. Jesus quero desabafar; é neste papel que eu desabafo; vou à procura do que não encontro, procuro e não acho, quero alívio, anseio por ele sem conseguir encontrá-lo, fico na minha dor, é a minha cruz. Ela está tão gravada no meu corpo, sinto que todo ele é cruz, chagas, espinhos e sangue.

No domingo, dia 10, logo que recebi o meu Jesus, por um bom espaço de tempo, senti-me como se adormecesse Nele e Ele em mim; não ouvi a divina voz de Jesus, mas oh! que sono tão doce! Depois de acordada, fiquei com a alma confortada, mais forte para a dor, que horas depois, caiu sobre mim, a pontos de eu não a poder encobrir. Pobre de mim, sem conforto!

Tive 6 combates seguidos com o demónio. Que martírio! Tinha o inferno em mim, ou por outra, estava presa ao pecado e presa ao inferno; nem depois da luta eu saía das garras infernais. Era dos braços do demónio que eu me entregava ao pecado, ao prazer. Os gestos e palavras do maldito causavam horror., Clamei, clamei, invoquei o nome de Jesus e da Mãezinha, muitas e muitas vezes, e, mesmo na luta, fixei Neles os meus olhares, parecia-me não ter vergonha de estar na presença de Jesus e de ser vista pela Mãezinha. Com que coragem eu Lhes dizia que não queria pecar!

No último combate, que me pareceu não chegar a tanta gravidade, senti como se me cortassem uma cadeia, e eu fiquei livre do, inferno e do pecado; parecia-me ver para mim abertas as portas do Céu. A minha alma ficou em paz; por muito tempo passou de mim o receio, se sim ou não tinha pecado. Como é bom o meu Jesus, como Ele me ampara e vela por mim!

Na tarde de quinta-feira, senti como se me pusessem no coração uma montanha mundial; foi esta montanha que tive que transportar, atravessar, transformar. Oprimida, esmagada por ela, passei pela sala da ceia, pela sala do amor; derretia-me em amor, mas sempre na dor. Da sala passei ao Horto, a ser esmagada e sempre a transportar a mesma montanha. No Horto, senti todos os sofrimentos em conjunto; suei sangue, agonizei.

Hoje, de manhãzinha, toda ferida, com a cruz aos ombros, caminhei para o Calvário com um sofrimento inexplicável, que a minha cegueira não sabe ver. Sobre mim, sobre a minha cruz foi a mesma montanha de quinta-feira. Não podia respirar; desfalecida. Atraíram-me ao cimo da montanha ânsias de amor, ânsias de dar a vida. Fui crucificada, e, no alto da cruz, um brado incessante subia ao Céu, subia e não entrava, parecia-me o Eterno Pai não ter de mim compaixão. O sangue corria de todas as minhas chagas, a regar o solo do Calvário. O meu brado doloroso e moribundo ecoava ao fundo da montanha. O brado de Jesus quase a expirar ecoou, fez-se sentir em meu coração. Nesta dor expirei com Ele. Jesus não demorou, falou-me depressa, depressa, de novo, deu vida à minha alma. Senti, como se o azul do firmamento pousasse sobre o meu peito e o Céu se abrisse.

― Minha filha, desce a ti o Céu, vem a ti Jesus, o Jesus que em ti habita, o Jesus que fez do teu coração o Sacrário, do teu peito o palácio da Sua habitação Desce a ti o Céu, vem receber a fragrância dos teus sofrimentos, do teu martírio; vem receber a reparação que tens dado ao Meu divino Coração. Repara; está curado, já não tem chaga; foi a tua dor o bálsamo que a curou.

O Coração divino de Jesus estava sem espinhos, sem sangue; todo ele era fogo, só amor. Jesus ficou em silêncio e eu também, a nadar naquele amor. Sentia que todo o Céu estava em festa, entoava hinos e nadava no mesmo amor, na mesma paz e doçura. De repente, vi grande multidão de Anjos que formavam alas. De cima formavam-se quase unidos, e, em baixo, separavam-se a mais larga distância. Por entre elas descia a Mãezinha sentada num trono, coroada Rainha, vestida de branco e manto azul. Pousou junto de mim. Tomou-me em Seus braços, uniu a mim o Seu rosto, os Seus Santíssimos lábios, abraçou-me, beijou-me e dos Seus lábios ficou, por algum tempo, a passar para os meus um alimento, que me satisfazia; encheu-me.

― Minha filha, tem coragem, não negues nada ao Meu Jesus, dá-Lhe toda a dor, que Ele te pede. O mundo é ingrato; repara, repara; Ele é tão ofendido! Goza do Céu; enche-te da Minha graça, pureza e amor. Dá tudo isto, que de Mim recebes às almas a quem amas. Eu amo-as também, é um prémio Meu. Goza do Céu, toma coragem para a tua cruz. Prometo assistir-te à tua morte; prometo em breve, muito em breve vir buscar-te para o Céu; prometo alcançar-te do Meu divino Filho a graça de vires ao encontro de todas as almas que te são queridas para as conduzires ao Paraíso, quando partirem da terra para lá. Coragem, coragem.

A Mãezinha subiu, desapareceram os Anjos e eu fiquei ainda a nadar na mesma felicidade, no mesmo Céu. Veio Jesus; introduziu o tubo do Seu amor em meu coração; do Dele saiu para o meu a gota do Seu divino Sangue, e, por o mesmo tubinho, ficou, por algum tempo a passar-se amor.

― Vai, Minha filha, leva a tua vida, leva a vida divina; é com ela que és redentora, é com ela que salvas os pecadores, é com ela que és poderosa, e, em união com Minha Bendita Mãe, salvas a humanidade. Coragem! Dá-Me dor, sem dor. O mundo peca, o mundo perde-se; acode-lhe, salva-o. Coragem! Vai para a tua cruz; é cruz brilhante, é resplendorosa, é cruz de redenção. Confia em Mim; não te enganas; a tua vida é real, é a vida de Cristo. Diz Minha filha, ao Meu sacerdote que lhe dou o Meu divino Coração com todos os Seus tesouros, para que com eles seja o que até aqui tem sido e para os distribuir às almas.

― Obrigada, meu Jesus; dizei um obrigado por mim à Mãezinha. Digo-Vos por todos os que me são queridos: obrigada, Jesus; obrigada, Mãezinha, por todas as graças e benefícios recebidos.

Passei a tarde com mais suavidade nos meus sofrimentos, tanto de alma como de corpo. Ao chegar a noite, vieram todos, recebi-os, é a minha cruz, é o amor do meu Jesus.

22 de Agosto de 1947 - Sexta-feira

De vez em quando, sem eu pensar nem querer, está a minha alma a bradar ao Céu, a clamar pelo Eterno Pai. Mas, ó meu Deus, para mim sinto já não haver Céu; as suas portas fecharam-se, o meu brado não é aceite, nem O Eterno Pai ouve a minha voz.

Um mundo de negras trevas separou-me da minha Pátria; não há Céu, não há vida para mim. Parece-me mostrar ao mundo as minhas chagas abertas, o coração todo em sangue e a cabeça cercada de espinhos e dizer-lhe: vê como eu te amo, vê o que sofro por ti; vem, o meu coração quer receber-te. Mas o mundo está cego, não vê o meu ferimento, está surdo, não ouve a minha voz. E pisa, calca, sem dó nem piedade, o meu pobre coração; é ele, chagado e em sangue, um trapo para a humanidade inteira, é o pó, é a lama que ela calca; é o mundo a ferir-me, é ele a causa da minha dor. Mas há em mim um amor que ama e esquece, um coração que busca e anseia, um coração, que é louco e quer dar a vida a toda a humanidade, e que está morto. Que grande agonia a da minha alma! Como é doloroso o meu sofrer! Em tudo vejo a cruz mas veja-a com o coração sempre a arder, sempre em ânsias de amar; é como uma caldeira sempre a ferver sobre a fornalha de brasas vivas. Esta fornalha, esta caldeira, este amor não é meu; tomou posse do meu corpo, mas não me pertence. Não sei amar com este amor, não sei aceitar nem ver a cruz como este amor. Ó meu Deus, pobre de mim, como é sensível e visível a minha miséria! Que nojo tenho de mim! É por isso que eu brado ao Céu, e brado, noite e dia: Jesus dá ou permite outros darem um corte em todas as minhas alegrias; não chego a saboreá-las; nas mais pequeninas coisas, em que eu poderia, alegrar-me, um fino golpe, vindo daqui ou dalém, lhe tira toda a doença. É a minha cruz, logo murmura o meu coração. Meu Jesus, por Vosso amor. Vós, Vós, só Vós, cortai-me tudo, tirai-me tudo, todo o afecto, toda a alegria, todo o amor, que não seja o Vosso.

É impossível, por vezes, resistir a tanta ânsia, a tantos desejos de me dar a Jesus, de ser só Dele, de toda Lhe pertencer, de O amar e em tudo ver o Seu divino amor. Busco Jesus, quero abraçá-Lo. Ele mais se ausenta, mais se separa de mim. E eu, sem poder encontrá-Lo, abraço a minha cruz numa confiança ilimitada de que nela está o meu Jesus, de que é Ele e de que todo o sofrimento é cruz vem Dele? Se é esta a vontade do Senhor, não quero viver senão na dor. Não é possível arrancar do meu coração os sentimentos da sua dor; que martírio triunfante! Sofre sem alívio, sofre sem saber sofrer, sofre sem saber amar. As minhas dores, as minhas chagas, os meus martírios, oh! como eu lhes quero!

As dúvidas sugeridas por Satanás, são, em algumas horas, espinhos penetrantes; chuva queimadora que penetra todo o meu ser. Sem saber falar para Jesus, peço-Lhe para ler em mim, para ler em meu coração, e, escondida na divina chaga Dele e, à sombra do manto da querida Mãezinha, deixo passar a tempestade; não posso ter perigo com tal protecção.

Ontem, ainda muito cedo, o meu coração voava para o Horto beber na fonte de toda a dor, levava consigo outra fonte superior ainda; era a do amor. Este obrigava a beber na outra. E todas as horas do dia, pensasse, dissesse, ou sofresse fosse o que fosse, do Horto vinham constantemente punhais agudos a retalharem-me o coração. Que triste era o horto e doloroso o Calvário que a ele se unia! Terminada a ceia, ao sair da sala, foi a despedida de Jesus e da Mãezinha; uniram-se os Seus divinos Corações e rostos, uniram-se os Seus amores para não mais se separarem; choravam as Suas almas. Era o Horto; ía ser o Calvário de Jesus e da Mãezinha. Caminhei para lá com Jesus, com Ele bebi até à última gota a cálice da amargura. Sobre os meus vestidos ou sobre os vestidos de Jesus, formaram-se outros vestidos, vestidos de sangue coalhado. Ó dolorosa e tremenda agonia! Ó amor de Jesus, que não és conhecido nem compreendido!

Hoje, de manhãzinha, senti que o meu peito principiou a ser o caminho da amargura, pelo qual seguiu Jesus ao Calvário. O meu peito era e sangue; espinhos postos pelo mundo, sangue que Jesus derramava. A minha alma via-O caminhar, desfiguradíssimo, sem nada se parecer com Jesus, levando aos ombros o pesado madeiro. Senti-o cair, muitas vezes, quase moribundo. Não podia respirar com estes dolorosos sentimentos. O meu caminho é espinhos e sangue; e Jesus, todo ferido, era, cruz, dor e amor.

Quando a Verónica limpou o rosto de Jesus, eu senti, como se o meu rosto e o amor do meu coração, que não era o meu amor, ficassem no pano imprimidos. No alto da cruz, eu morria por morrer, morria por dar a vida. Sentia no meu coração o Coração divino de Jesus a arder, a ferver; sentia Ele regar com o Seu divino Sangue e romper por entre uma montanha de sofrimentos. Era formada de pedra dura, mas o sangue divino de Jesus transformava-a. Só sangue de um Deus podia obter tal transformação; só uma força divina podia resistir a tanta dor. Eu sentia os Seus olhos divinos entreabrirem-se, para, na maior agonia, bradar ao Pai.

A Mãezinha rodeava a cruz. Não posso dizer, não sei dizer o que a Mãezinha sofria. Com que dor Ela fitava Jesus. O Seu amado Filho via e sofria tudo. Foi, pela segunda vez, que eu senti e vi a escada pela qual foi descido Jesus e posto nos braços da Mãezinha. Vi as suas lágrimas e setas; senti a Sua dor. Jesus viu tudo antes de expirar. Quanto devo a Jesus em ter-me associado aos Seus sofrimentos, aos da Mãezinha e em agonizar com Ele. Veio Jesus ressuscitar-me. Demorou-se um pouco; veio, deu-me vida, mas não me deu luz; falava-me, estava em paz, mas em grandes trevas.

― Minha filha, Minha filha, esposa Minha, esposa de dor, esposa de amor. Toma lá, aceita o Meu divino Coração; tens chave. Vê se consegues fechar nele a pobre Humanidade. As almas, as almas, afoga-as no Meu divino Sangue, incendeia-as neste amor. O mundo, o mundo, com ele peca; que maus-tratos Me dá; como Eu estou ferido!

Jesus dizia isto e chorava copiosas lágrimas, via-O chorar, ouvia os Seus soluços, não tinha nenhuma beleza, que triste mendigo Ele era; as Suas carnes Santíssimas estavam despedaçadas; que grandes feridas; o sangue escorria!

― Sabeis, meu Jesus, que não posso ver-Vos chorar, nem assim ferido; dizei-me, dizei-me, pela Vossa Paixão, pelo Vosso divino Sangue, pelas dores da Mãezinha o que posso fazer por Vós, para não sofrerdes, para Vos consolar.

― A tua dor, Minha filha, o teu amor são o bálsamo do Meu sofrer. Quero-te na cruz; não te posso ter, um momento, fora dela, porque nem um só momento estou sem ser ofendido. O mundo, o pobre mundo, o que será dele, o que o espera; bem depressa se ouvirá nele a voz do canhão, bem depressa gemerá entre o fogo aceso da justiça do Meu Pai! Pede, brada, diz, Minha filha, que não será muitas vezes que Jesus o chama, que Jesus o convida à penitência, à oração. Brada, brada depressa; está a ser tarde para a reconciliação. Coragem, coragem, alegre na cruz, alegre na dor. Como é grande, como é sem igual a reparação que Me dás. Grande, muito grande, com grandeza inigualável é o amor. Espalha-o, incendeia-o nas almas; acode-lhes, salva-as para não Me veres sofrer. Vou dar-te o Meu divino Sangue, a vida do teu corpo, a vida da tua alma, a vida das almas.

Introduziu Jesus o tubo no meu coração; era doirado; introduziu-o bem fundo, bem no fundo foi cair a gota do Seu Sangue divino. Não desligou o Seu Santíssimo Coração; deixou-O, por algum tempo, a infundir-me amor. Ao receber o Sangue e o amor de Jesus, toda a minha alma se iluminou; desapareceu toda a treva.

― Meu Jesus, meu dulcíssimo amor, sei que sois Vós; é a Vossa luz que eu vejo. Porque me tivestes, até agora, em tantas trevas?

― Para Me reparares, filha amada; para mesmo comigo estares na cruz. As trevas, que vias, eram as trevas do pecado; eram os crimes, as maldades que assim Me tinha ferido. Já vês que sou Eu. Velo por ti. Não Me ausentei, sem te dar a Minha luz. Toma coragem e vai espalhar o Meu amor. Diz às almas que Eu as quero, que Eu as amo; trá-las todas a Mim. Coragem! Não te deixei sem o Meu conforto; supro os homens, ocupo o lugar daqueles que te deviam amparar e não os deixam amparar-te. Pobres daqueles, que se opões à Minha divina vontade! Eu venço. Bem depressa se cumprem as Minhas divinas palavras. Coragem! Leva a Minha alegria, o Meu sorriso, o Meu amor, a Minha paz.

― Obrigada, meu Jesus. Fazei que eu seja toda para Vós e para as almas e em tudo faça a Vossa divina vontade.

Deixei Jesus, mas já não O deixei a chorar; deixei-O formoso, cheio de luz. Vim logo para os meus sofrimentos, para a minha cruz; só o coração tem fogo. Já lá vão umas horas; ele ainda queima; todo o peito está em fogo. Que amargura já tenho na minha alma! Mas ai! Quem me dera com esta amargura levar às almas o meu amor de Jesus!

29 de Agosto de 1947 - Sexta-feira

Apagou-se por completo a luz de todas as minhas esperanças. Foram as minhas trevas a causa de todo este mal. Poderei viver assim, meu Jesus, arrastada só pela cadeia da confiança em Vós? Mas ai, quantas vezes até essa me parece perder. Mas eu confio, meu Jesus, confia mesmo contra tudo, contra toda a morte das minhas esperanças. Espero em Vós, Senhor, e não serei confundida.

Há espinhos que me ferem, e vão ferir-me até à morte. Quando sinto e penso na dor, que me causam, fito os meus olhos em Jesus, e digo: para que estou eu a pensar no que me fere a mim. Se eu pensasse, meu Jesus, nos espinhos que ferem o Vosso divino Coração, na dor que Vos causam os crimes da humanidade, esquecia a minha dor. Perdoai, meu Jesus, a minha ingratidão, aceitai as minhas lágrimas; sofro tudo por Vosso amor, sou a Vossa vítima, sou vítima das almas.

Neste momento cubro Jesus crucificado de carícias; abraço-O, e assim me vou esquecendo do que sofro. Não sei o que tenho em mim; o meu rosto é uma caveira gravada no meu coração; não é uma caveira perfeita; está deformada, apodrecida. Que horror ela me causa à minha alma! Os espinhos, que me cingem a cabeça, transformaram-na só em sangue e os olhos da mesma forma; não só lágrimas de sangue, mas os olhos inteiramente se transformaram em duas fontes de sangue. As chagas das mãos, dos pés, do coração abriram tanto, tanto, que sinto, como se me desaparecesse a carne e os ossos e se gravassem as chagas em sangue coalhado; todo o meu ser é uma massa de sangue. Meu Deus, meu Deus, quanto custa este martírio, quanto me custa a minha dor. Sinto-me como se estivesse neste leito de dor a servir de palhaço, sorrio para todos, enquanto que a alma chora; parece-me que a todos engano, em todo o sentido; mostro-me feliz e alegre, e a minha felicidade e alegria está só no sofrimento e no cumprimento da vontade do Senhor.

Não quero viver mais para mim nem para as criaturas; quero viver só para Jesus; quero que o meu viver seja o sentir da minha alma. Sinto que da terra, das criaturas nenhum conforto possa receber; mesmo os que me são mais queridos, sinto-os frios e gelados para mim. Jesus, Jesus, só Jesus, é Ele que eu quero, é só a Ele que eu pertenço. Não importa parecer-me estar sozinha; o que importa é vencer, é sofrer como quer Jesus.

O demónio rodeia-me, assusta-me, em forma de serpentes e outros bichos mais. Apareceu em forma humana com quatro olhos no rosto; tinha olhares aterradores. Atormenta-me a imaginação com dúvidas e coisas sem jeito. Em todas as minhas coisas, ele põe o maior veneno. Reapareceu-me na alma aquela ansiedade de, debulhada em lágrimas, me prostrar aos pés de Suas Santidade. Sinto-me como se dele recebesse alguma coisa, que dele ansiava. Queria agora humildemente beijar as Suas mãos como sinal do meu agradecimento. Meu Jesus, o que recebi eu? Parece-me que um peso saiu de sobre mim. Vós o sabeis, meu Jesus, e isso basta.

Ontem de tarde, vi o Horto; vi-o em duas partes; numa, tudo gera podridão, ruína e morte, trovões, tempestades e a ira do Senhor sobre ela; na outra, dor de toda a qualidade, dor sem fim. Levou-me para a última parte do amor; mergulhada ali naquela dor, transformou-se o meu coração num mar de sangue, que dava corrente para todas as nascentes; era a água de todas as fontes, era a vida de toas as vidas. Veio a primeira parte, e mergulhou-se neste mar de sangue, e aí a escondeu o amor de Jesus. Como eu a sentia e via ele incendiar-se! Como Ele amava, enquanto recebia dor, dor, sem fim.

Hoje, nas ruas da amargura, só vi trevas, só senti dor nestas trevas mergulhada. A minha alma despedaçava-se com o peso da dor; rasgavam-se-me as carnes, escorria o sangue. Sem poder com a cruz, caí no desfalecimento, e vi coberto de suor, sangue e pó o rosto de Jesus. Não O pude ver sofrer; desfaleci e caí com Ele com todo o Seu Santíssimo Corpo, gravado em meu peito. Aproximava-se o fim da montanha. Como Ele via com os Seus olhos divinos o que nela O esperava. Que tristeza mortal; derretia-se em dor a alma. No cimo da montanha, no alto da cruz, depois dos maus-tratos, blasfémias e calúnias, fiquei a sentir o silêncio do Calvário; ouvia os suspiros de Jesus, e, no meu peito, sentia o arquejar do seu. Feriam-me o coração os Seus suspiros. Com os olhos da alma via bem ao vivo a Mãezinha com olhares angustiosos a ver tudo que em Jesus se passava. Como Ele sofria! Juntavam-se as espadas do Seu Santíssimo Coração ao de Jesus todo ferido. Ele expirou e eu senti expirar com Ele; morta senti-me ficar por algum tempo.

Veio Jesus como ressuscitado, e ressuscitou-me também. Gozava Dele, da Sua paz, da Sua vida, mas sem a Sua luz.

― Minha filha, minha amada filha, são para Mim as tuas ânsias, o teu coração com todas as palpitações e amor; és Minha, tudo é para Mim, és o Meu sacrário. Vem gozar do Meu amor; sem ele não vives, sem ele não dás a vida às almas.

Veio ao meu encontro o Coração divino de Jesus; pelo centro saíam labaredas de fogo que penetraram em mim como raios de sol brilhante. Tudo em mim eram trevas; só o Coração de Jesus era luz e fogo. Fiquei a nadar naquele amor por um grande espaça de tempo em silêncio, sem falar, sem ouvir Jesus. Voltou de novo.

― Minha filha, esposa Minha, vou deixar dentro do teu coração o Meu todo cercado de espinhos; quando esses espinhos te atingirem, quando sentires por eles o teu coração ferido, diz-me muitas coisas, faz-me contínuos actos de amor. É o sinal que te dou de quando estou a ser mais ferido. Isto não quer dizer que estou assim a sofrer com aqueles espinhos, porque os passo todos para ti, Minha vítima amada. Aceitas ficar assim? Dá-me já uma resposta.

― Sim, meu Jesus, eu aceito; dai-me os espinhos, dai-me a dor, dai-me tudo o que Vos aprouver; consolai-Vos Vós, e feri e amargurai o meu coração, o meu corpo e todo o meu ser. Dai-me a Vossa graça, dai-me a Vossa força sem a qual eu sou nada e nada posso.

― Repara, repara, Minha filha, são grandes os crimes da Humanidade. Ai dela sem a reparação, ai dele sem o amor das vítimas. A caveira que sentes em ti é a caveira da Humanidade. Está deformada e apodrecida; está, Minha filha. Que horror, que horror, que malícia a dos homens, que onda, que incêndio de crimes. Acode, acode às almas. Encontrei na tua generosidade o sinal da mais alta reparação, o maior amor. Eis por que assim te faço sofrer e te dei a mais sublime missão, a missão das almas. Salva-as, salva-as.

Ficou Jesus novamente em silêncio e eu também a gozar a mesma paz, mas já mais um bocadinho de luz. Veio, de novo, Jesus a dizer-me:

― Vou dar-te novamente o Meu divino Sangue. É necessário reparar as forças perdidas. Não quero que deixe de correr em tuas veias o Sangue de Cristo Redentor; és Comigo redentora; é Comigo que abres o Céu às almas.

Jesus a dizer isto, e rapidamente introduziu o tubo no coração; foi como que uma injecção de vida e de luz. A gotinha de sangue caiu, logo fiquei mais forte e com a alma toda iluminada e presa fortemente a Jesus. Senti-me estar toda cingida a Ele com fortes cadeias.

― Minha filha, sou o Médico divino, sei a tua fortaleza, sem um milagre da Minha parte não aguentavas, por um só momento, com o Meu amor e o Meu divino Sangue. Vai, desprende-te de Mim; a cruz está à tua espera; sorri-lhe, vai para ela.

― Não posso meu Jesus. Sei que sois Vós pela luz que me dais, mas não sei o que me prende; não posso separar-me.

― É para que vejas que sou Eu e não tu, Minha filha; não vives de ilusões, não te enganas; é a Minha vida divina nas almas. Não te dou logo a luz, quando te falo, para mais sofreres. São êxtases dolorosos. Vai, vai espalhar o bem: vai salvar as almas.

― Meu Jesus, sabeis quem me pediu para Vos dizer que se quer salvar, que quer o Céu?

― Sei, Minha filha; e Eu prometo-lhe a salvação, prometo-lhe o Céu com toda a Minha glória; cantará em união contigo os Meus louvores eternamente. Depressa, depressa, vai já, vai para a cruz; coragem, coragem.

― Obrigada, obrigada, meu Jesus. Eu vou, vinde também comigo; sem Vós não resisto, não venço a dor.

Deixei Jesus, fiquei na cruz logo a sofrer. Passaram-se horas e eu a sentir no coração os espinhos. Penetraram-me tão fundo! Fiz acto de amor a Jesus, mas nada me satisfaz do que eu digo. Que dor a minha!

   

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