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“Convertei-vos porque
está próximo o reino de Deus”
Na
primeira leitura o profeta Isaías diz: “O povo que andava nas
trevas viu uma grande luz; habitavam numa terra de sombras, mas
uma luz brilhou sobre eles”.
Mas, que povo era esse que “andava nas trevas”, podemos
nós perguntar?
Todavia, seria talvez mais judicioso perguntar noutro tempo do
mesmo verbo: “O povo que anda nas trevas”, portanto
utilizando o presente e a resposta nos parecerá mais evidente,
porque actualmente o mundo anda completamente cego e temos a
impressão que cegos procuram guiar outros cegos.
A
Sagrada Escritura tem esta vantagem extraordinária: ser sempre
de uma actualidade estrondosa, qualquer que seja o trecho que
lemos.
Logo a seguir o mesmo Profeta diz ainda: “Multiplicaste a
alegria, aumentaste o júbilo”. Isto poderia ser uma verdade
nos nossos tempos, se o povo se sentisse feliz de louvar, de
amar, de adorar Deus “em espírito e em verdade”, mas,
infelizmente tal não é o caso, por muito optimista que desejemos
ser. Efectivamente, o povo — ou seja: nós todos — continuamos a
andar nas trevas, preferindo estas à Luz divina, aquela que nos
ilumina e nos mostra o Caminho, a Verdade e a Vida, tal como nos
lembra o salmo deste dia: “O
Senhor é minha luz e salvação”.
Poucos somos a querer
verdadeiramente “uma só coisa”,
aquela que do mais profundo do coração, de toda a força das
nossas almas devíamos pedir e desejar: “peço ao Senhor e
ardentemente a desejo: é habitar na casa do Senhor todos os dias
da minha vida, para saborear o seu encanto e ficar em vigília no
seu templo”.
Talvez porque muitos de nós confundimos a casa de Deus com a
nossa própria casa; talvez porque muitos de nós pensamos ter em
nós a “pedra filosofal” — mais inteligentes e sábios do que o
próprio Deus — julgamos ter o direito de julgar os nossos
semelhantes, de lhes impor as nossas ideias — mesmo quando elas
são erros manifestos — e dar lições sobre o que nós mesmos
ignoramos, talvez por isso, dizíamos, podemos aplicar a nós
mesmos, estas palavras de S. Paul, na sua carta aos Coríntios:
“Peço-vos,
irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estejais todos
de acordo e que não haja divisões entre vós; permanecei unidos
num mesmo espírito e num mesmo pensamento”.
Mas, mais ainda, “sem recorrer à
sabedoria da linguagem, para não esvaziar da sua eficácia a cruz
de Cristo”, sejamos
simples, sejamos humildes, sejamos amor, porque se Deus vive em
nós, em nós igualmente habita o Amor, porque “Deus é Amor”.
Que nos pede o Senhor, hoje
e cada dia que vivemos?
“Convertei-vos, porque está
próximo o Reino do Céu”.
Jesus avisa, Jesus aconselha e pede que façamos como Ele: que
anunciemos que o “Reino de Deus está próximo”, mas também
que proclamemos o Evangelho do reino, que anunciemos que Jesus
nos espera, que Ele quer que moremos na mesma morada onde Ele
vide: no Coração do Pai e cheios do Espírito Santo que nos
vivifica e nos enche “gratuitamente” dos seus sete dons, de
maneira que possamos ser, agora e sempre, filhos predilectos de
Deus e obtenhamos a salvação eterna, o que cada um de nós
anseia, “esperando contra toda esperança”, como nos diz
S. Paulo.
Lancemos as nossas redes, não para ter o orgulho de uma grande
pesca, mas para seguirmos com humildade, o convite de Jesus:
“Vinde comigo e Eu farei de
vós pescadores de homens”.
João Baptista estava na prisão, estava privado de liberdade, mas
nem por isso deixava de amar e adorar a Deus; a sua fé era maior
do que a morte que o esperava, uma morte violenta, cheia de
barbaridade e de ódio, por parte de Herodes.
A
sua figura de homem de Deus, de Profeta do Senhor, a sua
aceitação do martírio por amor de Deus, fez dele uma
“alma-vítima”, um arauto do Evangelho que de antemão, aceitara
de viver em Cristo, de Cristo e para Cristo, numa imolação
voluntária, semente da palavra divina nos corações de muitos dos
seus discípulos e de muitos outros, por isso se pode afirmar que
João Baptista, mesmo do fundo da sua prisão se tornou um
“pescador de homens”, segundo os desejos de Jesus, Filho de Deus
feito homem, para nos salvar.
Todos unidos no mesmo amor, na mesma irmandade dos filhos de
Deus, sejamos capazes de dizer, de gritar mesmo:
“Creio, firmemente, vir a contemplar a bondade do Senhor, na
terra dos vivos”. Ámen.
Afonso Rocha |