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SENTIMENTOS DA ALMA

1947

Abril

4 de Abril de 1947 - Sexta-feira Santa

Venha sobre mim o auxílio do Céu; sem a força divina nada poderei dizer, não posso mover os lábios para falar. A cada movimento, a cada palavra, sinto como se me arrancassem o peito e o coração. Confio; se Jesus quiser, conseguirei dizer alguma coisa do que me vai na alma. O meu corpo desfeito pela dor tem sido um montão de podridão a ferver. Este montão parecia-me a mim ser toda a humanidade estragada, a ferver de apodrecida. A morte correu para mim; sentia vir, senti-me morrer. Senti como se me separassem a alma do corpo; mas esta morte não deu ao corpo as cinzas de um cemitério.

Pouco depois de morto e sepultado, eu vi-o todo formosura, glorioso, a triunfar da morte. Quanto custa ao corpo separar-se do espírito; ele subiu, voou para o alto, e via que bem depressa de novo se unia àquele corpo que deixava frio, mais frio que o gelo, desfigurado, despedaçado, quase sem carne. Que contraste, que coisa que não sei explicar! Ele via que, de novo, se juntava, mas até esse momento até chegar a hora dessa separação, que universo de dor, que mar de martírio! Este corpo que morria e era glorioso, este espírito, que voava, estava em mim, mas não era meu; eu era apenas esse montão de morte apodrecida, nojenta, horrorosa, que causava a morte a este corpo glorioso. Eu não podia enfrentar tais coisas. O espírito puro, que podia voar com o seu corpo glorioso, introduzido, transformado nesta morte imensa, no meu corpo mundial apodrecido! Eu queria separar uma coisa da outra, e não podia; eu queria desviar o puro do imundo, e não conseguia; tive que morrer e ver o corpo e o espírito puro coberto da mais negra podridão. Sinto necessidade de querer dizer muito neste sentido, e não posso, nem sei dizer melhor. Senti que, depois da morte, dessa morte gloriosa, desci como que a um inferno, mas não a um inferno de fogo, de maldições e tormentos mas a um inferno só de tremenda escuridão, onde não entrava luz nem alegria; era um inferno de cegueira e ansiedade. Senti como que Nossa Senhora estivesse em mim, contente de braços abertos, como quem se sustenta no entre aquela multidão, como uma pomba batendo asas transmitindo a mesma alegria e fazendo como voasse essa multidão toda. Mas como, meu Deus! Vivo e não vivo, sou eu e não sou, estou no mundo e parti. Senti que desci a esse inferno, mas, de novo, saí, e que, atrás de mim, levava um bando sem número de pombas brancas que voavam atrás de mim, não digo bem, voavam esses seres que eram corpos atrás desse corpo glorioso. Eu senti e vi tudo e fiquei sempre mergulhada na dor, na cegueira e na morte. O que sofreu o meu pobre corpo, nestes dias, só Jesus o sabe. As agonias e torturas da minha alma só Ele as pode compreender. Este martírio de alma e corpo impediu-me de poder orar, de poder meditar na paixão de Jesus. Fitava-O na cruz rapidamente e só dizia: o que sofreu Jesus por meu amor; sofreu tanto que morreu por mim! E terei eu coragem de negar algum sofrimento de alma ou do corpo! Oh! não, meu Jesus; com a Vossa graça eu nada Vos negarei. Sou a Vossa vítima, noite e dia. Ó Mãezinha, pelas Vossas dores, pelo que sofrestes, junto à cruz do Vosso e meu Jesus, permiti que me associe a Vós e dai-me coragem e amor para o meu sofrimento.

No princípio da tarde, de ontem, senti como se a minha alma fosse presa, insultada, maltratada; era um nunca acabar de martírios. Nas outras quintas-feiras tenho sentido um ou outro sofrimento, mas neste senti muitos, se não foram todos. Senti e vi com a maior de todas as maravilhas; Jesus dar-se para nosso alimento, partir e ficar connosco. Que maravilha, que amor tão profundo! Vi o lava-pés e o discípulo amado inclinado sobre Jesus. Sentia e via o desespero de Judas. E vi-o partir à frente dos outros para O ir entregar. No Horto senti e vi beijar e apontar para Jesus para poder ser preso. Mas, antes da prisão, senti e vi a Sua grande aflição, a rolar pela terra, a suar sangue; o Anjo a confortá-Lo, e ele, com o cálice da amargura, a enchê-lo de sangue que lhe saía dos Seus divinos olhos, ouvidos e de todo o corpo. Vi, depois, à saída do Horto que O acompanhavam uma grande multidão de soldados com armas, homens com paus. Meu Deus, como eles maltratavam a Jesus! Como Ele já ía desfigurado e desfalecido! Vi S. Pedro a negá-Lo, mas sentia que aquela negação foi feita só por temor.

O galo cantava uma e outra vez. Ele chorou copiosas lágrimas. Oh! como foi grande o seu arrependimento! Custou-me tanto ver Jesus, de tribunal em tribunal, tão mal tratado, e por fim ter de O deixar sozinho na prisão. Ele já não parecia Jesus; os maus-tratos e a tristeza tinham-Lhe roubado toda a beleza. Deixei-O quase moribundo em tão escura prisão. E assim moribundo O senti hoje a seguir os caminhos do Calvário. Parecia-me que todas as feridas do Seu Santíssimo Corpo estavam no meu e ainda assim era chicoteada e arrastada; não havia compaixão para mim nem para o Nosso Jesus. Os espinhos da Sua Santíssima Cabeça feriam-me a minha e também me feriam o coração. Fui subindo e quantas vezes desfaleci com Ele e com Ele ia a expirar. Jesus ia dentro em mim tão ansioso para a morte como cordeirinho sequioso para a corrente; queria morrer para dar a vida. Na cruz, eu sentia como se o sangue das Chagas de Jesus corresse nos meus braços, pés, peito e cintura, como se tivesse chagas também. Senti, dentro em meu peito, um mundo tão cruel e tão duro que mo abriu, de cima abaixo. Não aceitava o amor de Jesus, não pude aguentar; não bradei como Jesus: meu Pai, porque me abandonaste, mas disse: ai, meu Deus, meu Deus, valei-me. Sei que o disse alto; não tive força para me conter a dizê-lo baixo. Neste transe doloroso, fiquei como se expirasse com Jesus. Passou-se algum tempo num silêncio mortal; Jesus despertou e fez que eu despertasse.

― Minha filha, Minha filha, eu não morri; vem a Mim, vem para o Meu amor, vem para o Meu fogo divino; ele é para ti a vida, é o cadinho, o fogo que te purifica, que dá a pureza, a graça, todo o brilho à tua alma. Mergulha-te nele, namora-te de Mim, enche-te, para poderes encher as almas. Descansa neste fogo, suaviza nele a tua dor, retoma as forças perdidas em tão doloroso martírio.

Jesus calou-se e eu fiquei por um espaço de tempo a arder naquelas chamas; senti-as, vi-as; eu era a caldeira, Jesus o fogo. Conservei-me em silêncio também; não sabia falar a Jesus. Não sentia as dores do corpo e a alma naquelas chamas tornou-se mais forte. Continuou Jesus:

― Minha filha, Minha esposa querida, vais agora receber-Me pelas mãos do Anjo da tua guarda. Vem, ao Seu lado, S. Miguel Arcanjo e o Anjo S. Gabriel; atrás deles seguem-nos uma multidão deles. Prepara-te; descem do Céu.

Só disse: Senhor, eu não sou digna, etc. Vinham os três Anjos, como me disse Jesus, e pararam à minha frente. O do meio com a Sagrada Hóstia nas mãos; os dos lados alumiavam e cobriam o do meio, o que trazia Jesus, com uma umbela rica. A multidão deles não cantavam, mas de mãos levantadas, cabeças inclinadas, num profundo recolhimento, dizia: glória, glória ao nosso Deus, ao nosso Rei, ao nosso Amor. A Ti glória, a Ti glória, ó Jesus, nosso Deus e Senhor. Isto era em tom de quem reza e não de quem canta. Inclinou-se para mim o Anjo; eu estendi-lhe a língua e Ele ao dar-me Jesus não principiou pelas palavras do costume, mas sim: “Viaticum Corpus Domini nostri Jesu Christi custodiat animam tuam in vitam aeternam”.

Desapareceram com a mesma reverência, no mesmo silêncio com que tinham aparecido em volta de mim. E toda a multidão de Anjos batia as suas asinhas brancas e pronunciavam as mesmas palavras. Vi-os seguir, tudo era luz.

Fiquei mergulhada em amor, numa intimidade com Jesus; parecia-me inseparável Dele.

― Minha filha, dei-Me a ti em alimento, sou a tua vida. Dei-Me deste forma, para mais e melhor mostrar as minhas maravilhas e para mostrar que estou contente com os Meus representantes na terra, com a doutrina da Minha Igreja. Não podia deixar-te sem o Meu alimento, depois de tantas forças consumidas, de tanto sofreres! Prometi não deixar-te sem a Minha Eucaristia, às sextas-feiras, e não faltei. Recebeste-Me como viático e é verdade que és enferma e sem um milagre divino não terias resistido à dor, eras moribunda. Coragem, Minha filha, Eu continuo a pedir-te sofrimento porque O Meu Eterno Pai continua a exigir grande reparação das Minhas vítimas para a salvação do mundo, para que os pecadores se convertam e venham a Mim. O Meu Divino Coração suspira, anseia por eles; vejo-os a fugirem-Me, a perderem-se, acode-lhes, são meus e teus. És a minha esposa mais querida, a maior vítima que tenho na terra, és a continuadora da Minha paixão, da obra da redenção. É revestida de Mim que continuas a salvar almas, a resgatá-las do pecado e a arrancá-las das garras de Satanás. Vai com o Meu divino amor, com a Minha graça salvá-las. Vai dizer tudo; leva a luz do Divino Espírito Santo. Coragem, coragem, e amor; vai para a cruz, que só deixarás, no momento da morte, quando voares ao Céu.

― Muito obrigada, meu Jesus! Permiti que eu vá firme no Vosso amor divino; conto com a Vossa graça. Aceitai desde já, o meu sacrifício. A minha alma já está a cair em grande amargura. Venha o que vier, eu amo-Vos; sou a Vossa vítima. São passadas três horas em que fui mergulhada no amor de Jesus; o coração ainda me queima, o peito está em brasas. A alma está triturada de dor; tudo em mim é cegueira, tudo são trevas na terra e no Céu. Seja sempre bendito o Senhor.

5 de Abril de 1947 - Primeiro sábado

Morri e não ressuscitei com Jesus; fiquei na mesma morte; fiquei em horroroso sofrimento. Envergonho-me de mim mesma, de só falar da dor; mas ela não me deixa, dia e noite. Só posso bendizer o Senhor por tantos miminhos vindos de Suas mãos divinas. Num demorado abraço no meu crucifixo com grandes gemidos, mas também com grandes ânsias de sofrer por Ele disse-Lhe: meu Jesus, contai sempre comigo para ser a Vossa vítima, não conteis com o meu amor, mas sim com o Vosso, pois é com ele que eu Vos amo; não conteis com a minha generosidade e força, mas sim com a Vossa; é a Vossa generosidade, é a Vossa força que se levanta a aceitar alegremente todo o sofrimento. A minha alma vê os espinhos, como se fossem rosas Formosas; quero sofrer, quero amar-Vos. Com o corpo cheio de agudíssimas dores e a alma em agonia foi que hoje, ao cair da tarde, recebi o meu Jesus. Cessaram os sofrimentos, fiquei como se adormecesse no Senhor. Veio Jesus, pôs em grande movimento o meu coração; incendiou-mo com todo o peito.

― Minha filha, tu que és a minha alegria e consolação vem a Mim tu que és a estrela que guia as almas, vem ao Meu Coração incendiar-te no Meu divino amor. Vive de Mim, recebe para viveres, vive para dares a vida. Eu vou dar-te uma gota do Meu Sangue divino; vai correr em tuas veias, vai suavizar a tua dor, vai dar-te a vida perdida em tão penoso martírio, neste Calvário onde te coloquei.

Jesus uniu logo o Seu divino coração ao meu. Logo que senti sair a gota do Seu divino Sangue, senti força, senti vida, toda a vida do Céu. Com o meu coração unidinho ao de Jesus, fiquei por algum tempo como que a navegar num mar de amor infinito de Jesus.

― Descansa, aqui, Minha filha; descansa e recebe vida; é esta a vida das virgens, é esta a vida das esposas loucas de amor por Mim. Diz, Minha filha, ao teu Paizinho que vou fazer que ele seja levado às alturas, não só no Céu no Meu amor, mas já aqui, na terra, nas Minhas obras e maravilhas; será justificado multiplicadas vezes mais do que foi humilhado. Dá-lhe o Meu divino amor para as almas; diz-lhe que será sempre o grande mestre delas e grande consolador do Meu divino coração. Diz ao teu médico que o amo, diz-lhe que lhe dou toda a Minha serenidade, tranquilidade e paz; diz-lhe que lhe dou o Meu divino Coração, cheio de amor, com a Minha bênção divina e abundância das Minhas graças, para ele distribuir aos que mais ligados estão ao seu coração. É o prémio da sua firmeza e defesa à Minha causa divina. Os teus males são agravados, em proveito das almas, para cuidado e preocupação dele e para todos os que mais de perto te rodeiam. Coragem e confiança; Jesus está com todos. Vem, Minha bendita Mãe, vem juntar aos Meus os teus carinhos, vem dar à Nossa filhinha a força que necessita.

Veio a Mãezinha, logo me tomou em Seus braços; fiquei entre o Seu peito e o de Jesus e unida ao rosto divino dos dois; era uma prensa de fogo.

― Amo-te, Minha filha, porque és de Jesus e és Minha; amo-te, porque és Minha filha e esposa de Jesus; amo-te porque és a Sua vítima; amo-te, porque sofrendo com Ele, acodes aos pecadores; amo-te porque Jesus te ama, amo-te, porque és toda Dele e Minha.

Continuou:

― Leva, Minha filha, este amor terno da tua e Minha Bendita Mãe; leva todo o amor de Jesus e vai dá-lo aos que te são queridos; diz-lhes que são os mimos do Céu, formados por amor divino; são mimos dados por tanto cuidado e amor dispensado à maior vítima, à maior heroína da humanidade, à maior amada do Meu Coração divino.

― Jesus, Mãezinha, em nome de todos Vos agradeço, Vos abraço com doçura.

― Vai, Minha filha; espera-te a tua cruz; tem coragem. O teu cansaço no sofrimento é para que os pecadores sintam cansaço no pecado. Eu não cesso, não cessarei mais de te pedir a dor, porque o mundo maldoso não cessará de Me ofender. Vai, pomba bela, forma para a cruz o teu voo; é da cruz que voas ao Céu; é do Céu que a tua missão dará ao mundo toda a luz. Coragem, Minha filha coragem!

― Obrigada Jesus. Eu vou e quero ficar Convosco, não para gozar, mas sim para Vos amar e de Vós receber força. Sede comigo, Jesus, sede comigo Mãezinha.

11 de Abril de 1947 - Sexta-feira

Sinto o meu corpo golpeado e desfeito pelo sofrimento e o coração cheio de punhais a cortarem-me dia e noite, não podendo ele deixar de sangrar, um só momento. Ó meu Deus, ó meu Jesus, como eu me sinto ferida! Seja tudo por Vosso amor; eu sou, ó Jesus, e quero ser sempre a Vossa vítima. Não posso esquecer as almas, os pobres pecadores. Que pena eu tenho deles! Tenho a certeza de que, se me esquecia destes pobres infelizes, desgostava o meu Jesus. Quero sofrer, quero sofrer para O amar, para O consolar e dar todas as almas. Não sei dizer o que quero: queria a todos no Céu, queria toda a humanidade, a arder de amor, dentro do coração divino de Jesus. Que sede insuportável de O ver amado! As minhas trevas, a cegueira do meu espírito, já vão além da cegueira. Ó meu Deus, não sei exprimir-me. Acima e abaixo de mim são trevas; atrás e à frente de mim, trevas são. Mas essa cegueira da minha frente, essa negra escuridão, pela qual tenho de passar, nunca teve luz, nunca foi nem será luz. É o que sente a minha alma. Que pavor! O que tenho de atravessar! Por vezes é tal o tormento, que a alma não transformar-se, desfalece. Mas a este desfalecimento, vem de encontro a dor de Jesus. Descem do alto direitos ao meu peito, a penetrarem no coração, raios de fogo, raios de amor. E então eu vivo, e com mais coragem e força abraço o crucifixo, abraço a dor e a cruz, e sem temor digo a Jesus; sou a Vossa vítima. No meio de agudíssimas dores, Jesus tem passado, à minha frente, vagarosamente, com um grande madeiro aos Seus Santíssimos Ombros. A visão da cruz, e ao vê-Lo assim desfigurado, comove-me, leva-me à compaixão, leva-me à sede de mais dar a Jesus, de mais e mais sofrer por Ele. Nas horas em que mais sofri, apareceu-me, duma vez, Jesus, em tamanho natural, cheio de luz, resplandecente de glória, e, noutra hora, a Mãezinha com o Menino Jesus ao colo, todo sorridente para mim, a estender-me os Seus bracinhos, como quem queria abraçar-me. Ao Seu lado uma cruz Formosíssima, luminosa, cheia de coroas de rosas. Que beleza! Aquela cruz, com Jesus e a Mãezinha, já era o Céu. Compreendi e senti na alma que era a cruz do Seu martírio, transformada na cruz celeste. Era minha; e o fim será no Céu. Foi o que eu senti. Esta visão fortaleceu a minha alma; por algum tempo era outra. Quando me sinto mais desfalecida, por vezes, sinto essa cruz gravada dentro de mim; logo retomo forças para resistir à dor. Jesus serve-se de tantos meios para ajudar a mais pobre e miserável das Suas filhinhas! Bendito, bendito Ele seja! Que pena eu tenho de não corresponder ao Seu amor infinito!

Na tarde de ontem, eu senti e vi Jesus numa grande amargura, com a Sua Sacrossanta Cabeça apoiada nas Suas Santíssimas mãos, em profundo silêncio. A seguir levantou os Seus divinos olhos, fitou a cidade representada dentro de mim; chorou, chorou sobre ela. Pouco depois, vi pela segunda vez a figueira reverdecida, e depois já seca sem uma folha ao menos. Essa figueira saía por entre um montinho de pedras. Vi ao mesmo lado que a vi pela primeira vez. Depois da ceia de Jesus com os Seus Apóstolos, vi pela primeira vez benzer o pão que viria a ser a nossa Eucaristia. Que encanto! O Seu Santíssimo Rosto era só luz, parecia que só fogo a rodeava, com os olhos encantadores fitos no Céu a um sorriso doce abençoava o pão, que pouco depois por todos distribuía. Quando Judas O recebeu, tornou-se ainda mais desesperado; já não parecia homem, mas sim um demónio. Jesus falava sempre com a mesma doçura e meigos sorrisos. Ainda foi ao Horto, receber o beijo do infeliz traidor, depois de ter suado sangue e sentir todo o Horto estremecer, sobretudo quando foi preso Jesus. Segui com Ele e com Ele fui espancada.

Hoje, ao seguir o Calvário, caminhava, pelo solo duro, a ser com Jesus açoitada e maltratada, com todo o corpo em chagas e sangue. Caminhava e não sei como. Sobre a terra e os maus-tratos dos homens e sobre mim o Céu com toda a sua justiça. Como essa justiça me esmagava! E eu tão desfalecida e sem luz não podia caminhar. Próxima à montanha ainda; ela caiu sobre mim; tive que romper as lajes. Senti o meu corpo como que um esqueleto tingido de sangue; e neste estado fiquei na cruz. O brado de Jesus não foi só por três vezes que se fez ouvir em todo o Calvário; foi um brado contínuo em toda a Sua agonia, era um brado do Coração que Ele fazia chegar ao Pai e que parecia ser por Ele rejeitado. Pelo Pai bradava e pelo mundo espalhava amor; tudo lhe saia do Seu divino Coração. E a Mãezinha, chorosa, ao pé da cruz, na mesma agonia! E sentia que Ela era com Jesus, que estava em mim, uma só coisa. Juntaram as Suas lágrimas, dores e agonia. A vista da Mãezinha aumentou em Jesus a agonia. Eu na mesma união sofri também. Passou pelo meu corpo como que um sopro gelado que me deixou sem vida; e senti como se o espírito me deixasse. Veio depois Jesus, restituiu-me a vida e disse-me:

― Vem, vem, Minha filha, dar de beber, saciar com a tua dor a sede ardente, a sede devoradora do teu Esposo, do teu Jesus. Quero o teu amor. Ama-Me, ama-Me por ti, ama-Me pelos que não Me amam. Eu tenho fome, Eu tenho sede das almas; não posso viver assim. Tenho sede de amor, e sou por elas ferido; quero-as em Meu Divino Coração, e sou pelos pecadores lanceado. Repara, repara bem como Eu estou. Jesus retirou do peito os Seus vestidos; tinha o lado aberto, o Coração todo em sangue.

Sem poder vê-Lo assim ferido disse:

― O que posso eu fazer Jesus? Amar-Vos, não sei, nada tenho para consolar-Vos. Dai-me o Vosso amor; com ele posso dizer que Vos amo por mim e por todos os que Vos não amam. Dai-me a Vossa força para com ela poder dizer-Vos; dai-me todo o sofrimento, para com ele salvar as almas e não deixar que os pecadores assim firam o Vosso Divino Coração. Quero sofrer, meu Jesus, para ver o Vosso peito cerrado e sem ferida o Vosso Divino Coração; que Ele seja só amor e compaixão para com todos os que Vos ferem, Jesus.

― Já estou curado, Minha heroína; a tua generosidade e amor à dor foram o bálsamo que Me curou. És tu, Minha louquinha, o bálsamo do Meu sofrer, e eu serei sempre o bálsamo, a força, o conforto no teu martírio. Coragem! O mendigo, que todas as sextas-feiras te bate à porta a pedir a esmola, não cessa de te pedir: dá-Me dor, Minha louquinha, dá-Me dor, salva-Me as almas; consola o Meu divino Coração e vai dizer ao mundo: converte-te, vem para Jesus; converte-te e ama-O; converte-te e converte-te depressa, se não queres ver bem depressa cair sobre ti toda a infinita justiça de Seu Eterno Pai.

― Meu Jesus, olhai a minha miséria e compadecei-Vos dela; eu não sei sofrer nem reparar e parece-me que são inúteis os meus sofrimentos.

― Revestidos de mim, têm todo o valor. Confia no que te diz Jesus. Vais ver sair do Purgatório, subir ao Céu trinta e três almas em honra dos anos que vivi na terra e salvas por ti. Vão ser levadas pela Minha Bendita Mãe.

Vi como que um campo de fogo, mas um fogo que atraía e que fazia a alma ansiar e mergulhar-se nele. Por entre essas chamas foram saindo e voando um bando de pombas brancas, brancas como a branca neve; esvoaçavam como andorinhas a poisarem nos seus ninhos; o ninho delas era o manto azul celeste da Mãezinha que ficou guarnecido com todas essas pombas brancas. A Mãezinha, coroada de rainha, foi subindo, subindo, até que desapareceu com todo o bando. Num grande contentamento disse:

― Obrigada, obrigada, meu Jesus; fazei que vão ocupar o lugar delas, para se purificarem todas as almas que partirem do mundo; para que nenhuma se perca sou sempre a Vossa vítima.

― Para que assim seja, filha querida, para que se salvem os pecadores, dás-Me então uma grande reparação, nos dias que vão seguir-se? Terás grandes ataques com o demónio; terás que combater fortemente. Não Me dás uma recusa, não?

― Não, meu Jesus; dai-me a Vossa graça, para não Vos ofender; sede a minha força, para eu poder abraçar todo o martírio. Sede comigo e aceitai o meu coração agradecido.

18 de Abril de 1947 - Sexta-feira

Tenho ânsias, tenho ânsias de me purificar, cada vez mais, e nada consigo! Que hei-de eu fazer, meu Jesus? Causa-me horror ver a minha miséria, porque é só o que eu vejo. Avanço, avanço, e, momento a momento, mais me enrolo, mais me mergulho na cegueira, que me aterra, na cegueira que nunca foi luz nem nunca a luz conheceu. Assusto-me, vejo, sinto que esta cegueira é morte e que nunca poderá ver. Neste temor, feito o Coração divino de Jesus, invoco o Seu Santo Nome, e, por vezes sinto-me como se fosse transportada às nuvens; deixo a terra, mas não chego ao Céu. Nesta viagem às alturas, respiro, sinto-me confortada, fortalecida com uns ares mais puros, com aquela vida que não é o Céu, mas também não é a terra; não é gozo, mas é força, não é a verdadeira vida, mas também não é morte. Baixo novamente à mesma cegueira, só à vista da minha miséria, mas então com mais coragem para abraçar a minha cruz, a pisar os espinhos que tão agudamente me ferem, ansiosa e como que enlouquecida para consolar Jesus, dar-lhe as almas, purificar-me de todos os meus defeitos, ser pura para só viver a vida de Jesus, ser pura e Nele me esconder para sempre, sofrer escondida Nele, amá-Lo sempre Nele escondida, fugir ao mundo, desaparecer dele, desaparecer por completo. Não consigo os meus desejos, não sou pura, nada sofro, nada faço de bom, tudo se apaga sem aparecer. Ai, meu Jesus, vinde em meu auxílio; estou sozinha sem ninguém, meu Jesus, sem ninguém. Foge-me o Céu, estou como se me fugissem todos os amigos da terra.

E o demónio a atormentar-me tão fortemente.

Tenho estado sobre o inferno, não sei o que me livrou de cair nele, nada vi que me segurasse, só me faltou mergulhar-me nos seus horrores, nas suas penas. Esta visão foi essa luta com o maldito. Tive mais três ataques. Nos dois primeiros, senti passar sobre mim as labaredas do inferno, ouvia uivos, ranger de dentes e um demónio muito feio de boca aberta com um grande pedaço da língua de fora, língua em brasa, e estendia ao longe grandes chamas; causava pavor. Já lá vão alguns dias e por vezes sinto no coração como se de novo voltasse a ver toda aquela cena. Convidava-me ao mal e fiquei com grande temor de ter pecado. Nem posso lembrar-me das suas malícias. Que horror! Como se ofende Nosso Senhor! Posso tão pouco invocar o nome de Jesus e da Mãezinha! Penso que é o maldito que não me deixa. Não posso sem me oferecer como vítima e é só para reparar que tais sofrimentos aceito. No último ataque, ele principiou, de longe, a preparar-me para o mal com coisas pequenas, mas cheias de maldades. Foi indo, foi indo, incendiou-se o fogo, envolveu-se a terra com o inferno; eu era o mundo, era o inferno. Ó meu Deus, que pavor! Voltei a repetir a Jesus: se hei-de ofender-Vos, prefiro o inferno; não quero pecar, não quero pecar, sou a Vossa vítima. Jesus, Mãezinha, ai, quanto me custa isto!

Ao cair da tarde de ontem, senti como se no meu coração estivesse gravado Jesus e a Mãezinha, numa tristeza e amargura tão profunda, que causava dó. Jesus beijou e aquele beijo foi de despedida; e deixou no Coração da Mãezinha raios de fogo; foram fios, foram prisões de amor que os deixaram para sempre unidos. Jesus foi para o Horto e ficou com a Mãezinha. A Mãezinha ficou e foi com Jesus. Eu no Horto senti como se em meu corpo nem uma só veia ficasse por abrir. Os Apóstolos dormiam; Judas aproximava-se. À voz de Jesus vieram sobressaltados. Judas deu o seu beijo traidor e todos caíram por terra; a terra foi o meu coração. Feriram-me as armas e os paus. Vi Jesus que em Suas Santíssimas mãos tomou. Ao ver isto, fugiu S. Pedro por entre a multidão; foi à frente de Jesus; não viu os maus-tratos que Lhe deram. Mas via a Mãezinha; velava ao longe. Eu sentia que o Seu Santíssimo Coração adivinhava tudo. Quanto Ela sofria e quanto sofria eu também com os sofrimentos de Jesus e os dela! Na manhã de hoje, caminhei oprimida pela violência da dor; ia como que encerrada num mundo do sofrimentos. Caminhei sem luz, mas cheguei ao Calvário e lá com mais sensibilidade fui cravada na cruz; e então em todo o meu corpo estava Jesus; eu era apenas uma casca frágil que O encobria. Sentia todas as Suas chagas e feridas, os espinhos da Sua Sacrossanta Cabeça, o palpitar do Coração, lágrimas e gotas de sangue, tudo em mim era Jesus. Quando estava a ser cravada na cruz, ainda senti o meu rosto a ser nojosamente escarrado. A frágil casca do meu corpo não impedia os sofrimentos e maus-tratos de Jesus. Fiquei no mesmo brado e agonia com Ele. Quando Jesus expirou, eu senti que o espírito divino voou de verdade ao Pai, e eu fiquei morta. Pouco depois Ele voltou e disse-me:

― Minha filha, o Jardineiro da tua alma está em teu coração; cuido, cultivo as flores que adornam a minha alma. Como são belas! A água que as rega é a água da pureza, água de graça e amor. Confia; o teu Jardineiro é Jesus; habito em teu coração; repara como eu cuido delas. Tu és a pastorinha de Jesus, a pastorinha das almas; apascenta-las no jardim formoso da tua alma. Vi então Jesus feito Jardineiro, no seio de belas flores, de regador na mão a regá-las cuidadosamente; via cair a água com abundância.

― Cuidai, cuidai, meu Jesus, cuidai delas e cuidai de mim; eu sou miséria e nada posso sem vós. Permiti que com a Vossa graça, no jardim do Vosso divino amor, eu posso mergulhar em almas; sustentai-as com o que é Vosso.

― Coragem, coragem, Minha filha; sem dor não há vítima, sem dor não há amor, sem dor não há vida. Tu és a vida de Jesus, és a vida das almas. Se todas as vítimas sofrem, como não hás-de sofrer tu, Minha filha, que és a maior vítima da humanidade. Dá-Me dor, acode ao mundo, vem sobre ele a justiça de Meu Pai e vem depressa. Não há justos na terra, não há almas que Me amem, a ponto de repararem todas e tão graves ofensas. Pobre mundo, vai ser carbonizado; ficará mirrado com o fogo da justiça divina.

Levantei as mãos, cheia de terror, e disse:

― Perdoai, meu Jesus, perdoai, perdoai já, perdoai sempre! Como hei-de acudir ao mundo? Bem me parecem a mim que de nada valem os meus sofrimentos.

― Coragem, Minha filha, coragem, amada Minha; sofre com alegria. A tua imolação continua se o mundo não quiser que seja de remédio para os seus corpos é-o sempre para as suas almas. Pede-lhe, pede-lhe que se converta, que venha a Mim. Dás-me mais lutas, mais ataques com o demónio?

― Dou, meu Jesus, mas sabeis bem que é o que mais me custa. Que medo de Vos ofender!

― É por te custar que, Minha filha, que mais reparação Me dás. Não temas, confia em Mim; não deixo que Me ofendas. Os dois primeiros combates que te pedi foram pelos esposos pais de família. Com que gravidade Me ofendem; o último foi por toda a humanidade. Foi por isso que te envolveste com o inferno. O mundo! o pecado! Vítima a lutar com o inferno. Eras tu, Minha pomba amada, a livrares de lá as almas. Coragem! Vem receber vida para combateres. Recebe uma gota do Meu Divino Sangue; é a tua vida, é a força do teu sofrer.

Jesus com o Seu Divino Coração a arder em labaredas uniu-O ao meu, deixou cair a gota do Seu Sangue divino. O fogo ateou-se; o meu principiou a dilatar-se. Jesus passou logo as Suas Santíssimas mãos sobre o meu peito, acariciou-me e disse:

― Toma, Minha filha, a tua cruz; vai convidar as almas a virem a Mim, vai levar-lhes esta vida. E como prova do valor dos teus sofrimentos e de que és a salvação delas, a cada acto de amor, a cada vez que Me disseres: Jesus, eu amo-Vos, serei amado por mais uma alma. E sempre que abraçada ao crucifixo disseres: Jesus, sou a Vossa vítima mais um pecador será salvo, esquecerei as suas ofensas. Prometo-te, confia, sou O teu Jesus. Diz-Me isto muitas vezes. Vai com coragem! No Céu continuas a mesma missão; ele está perto. Vai com alegria; vai, filha do amor, vai, louquinha do amor, vai chamar a Mim as almas.

― Obrigada, meu Jesus; obrigada, meu Amor, eu vou; vinde Vós comigo. Ao o Céu, meu Jesus, que nunca chega. Faça-se a Vossa vontade divina. Sou a Vossa vítima, vítima até dos meus desejos. Farei, Jesus, que eu morra para mim e para todos, viva só para Voa e para as almas.

25 de Abril de 1947 - Sexta-feira

O meu sofrimento aumenta, a minha cruz pesa-me mais de momento para momento. Sinto-me como se estivessem a terminar os meus dias aqui na terra. O meu pobre corpo é uma massa em sangue, desfeito pela dor. Vivo como se não vivesse. O que será de mim, meu Jesus! Amo a cruz e não tenho forças para a abraçar. Sinto-me arrefecer, estou gelada. Quanto mais sofro, menos sinto amar a Jesus. Quanto mais Lhe ofereço os meus sofrimentos, nas minhas negras e dolorosas trevas, menos sinto que Lhe dou. Não tenho para Ele um sorriso, um acto de amor ou reparação. Sou pobre, mísera pobre; o que Lhe dou, nada me pertence. Sinto-me, por vezes, na divina presença de Jesus, de mãos vazias, olhos baixos, cabeça inclinada, envergonhada de mim mesma. Que contas Vos hei-de dar, meu Deus, a Vós, de quem tudo recebi a quem nada dei e nada tenho para dar. Triste confusão a minha! Poderei viver sem sofrer e sem amar O meu Jesus? Oh! não, não posso sem isso a vida seria para mim já um inferno. Ó Jesus aceitai para Vós o meu sofrimento e mesmo sem sentir amor fazei que Vos ame, deixai-me enlouquecer por Vós. Os espinhos nascem para mim, noite e dia, como noite e dia nascem e crescem as flores dos campos e jardins. Por todos os lados os sinto e vejo a ferirem-me. Eu quero-os e amo-os, mas desfaleço em recebê-los; recebe-os como mimos do Céu, como carícias de Jesus. Pressinto que novos e agudos espinhos alguém prepara para me cravar; parece-me ouvir o rumor de nova tempestade. Levantam-se contra mim novas ondas furiosas. De novo me estendo na cruz; deixo-me crucificar à semelhança do meu Senhor.

Na noite de 14 para 15, veio de encontro ao meu martírio, suavizar a minha dor, uma linda visão da SS. Trindade; era um trono riquíssimo: no cimo o divino Espírito Santo em forma de pomba deixava cair sobre O Pai e sobre O Filho que mais abaixo, ao lado um do outro, estavam sentados, uma chuva de raios doirados. Pouco depois, diante do Eterno Pai, uma alma ficou ajoelhada em sinal de reverência; uniu-se a uma mão dela uma mão de Jesus que o Padre Eterno ligou. Tudo estava iluminado, parecia o Céu, era luz celeste. Desapareceram as três divinas pessoas e a alma ficou por algum tempo na mesma posição, mergulhada no mesmo amor. Confortou-me também a visão, duma vez de S. José, e, doutra, de Nossa Senhora; um e outro com o Menino Jesus ao colo. São eles que me levantam, são eles a força e a coragem do meu tanto sofrer. Não sou eu que sofro, mas sim Jesus, só Jesus que sofre por mim.

O demónio atormenta-me com dúvidas que sem a força do Céu seriam um desespero. Aparece-me em formas feiíssimas e, por vezes, abre-se todo o inferno com todos os seus sofrimentos para me receber. Numerosas feras infernais correm para mim com todo o seu furor. Ó meu Deus, parece-me que todo o mundo é inferno, que todo o mundo é pecado, que todo o mundo tem a malícia e a maldade do demónio. O maldito instrui as almas em grandes crimes.

Na tardinha de ontem, avivou os sofrimentos do meu corpo, que eram enormes, a visão, a visão do Calvário. Dentro de mim, vi Jesus, depois de morto, ser descido da cruz e ser posto nos braços da Mãezinha; vi os Seus olhos agoniosos, senti o Seu coração trespassado; senti e vi o caminho com que Ele O estreitava e limpava o sangue e o pó das Suas feridas. Todo o Calvário se mexia, as pedras estalavam e faziam grandes fendas. Esta agonia e sofrimentos tão dolorosos preparam-me o Horto; e lá fui para ele; lá se me rasgaram as veias, suei sangue e vi o cálice. Jesus foi que o levantou e ofereceu ao Pai, cheio de amargura. O solo estremeceu e com todos os ramos das oliveiras. Debaixo de cruéis maus-tratos, deixei-o para ir para a prisão. E hoje, num canal de sofrimento, como se fosse uma prensa fui subindo as ladeiras do Calvário. Senti as cordas na cintura e no pescoço; cortavam-me, feriam-me. Vi Jesus a ser despido e, neste momento, o Seu rosto divino ficou como que incendiado; levantou ao Céu os Seus olhares e baixou-os, depois, em profunda tristeza e grande vergonha. Vi, junto à cruz, a escada, pela qual Jesus havia de ser descido; vi o lençol onde Ele havia de ser embrulhado. Jesus, antes de expirar, viu a cena comovedora, ao ser depositado nos braços da Mãezinha; viu os Seus carinhos e lágrimas, viu as espadas que A feriam, viu-A em igual dor e agonia. Quando expirou, o Seu espírito voou como pomba de todas as Suas chagas saíram raios de luz como sol por frestas. Quando o Seu espírito divino voou foi-Lhe aberto o coração. Senti a Sua grande prova de amor e que Ele nada mais podia fazer por nós. Pouco depois, de novo vivi com Ele.

― Minha filha, Minha filha, um coração puro, um coração abrasado, com a mistura da dor alcança do Meu divino Coração tudo quanto Lhe pedir em benefício das almas, isto não falando em outras graças. Assim és tu, vítima poderosa, sem seres igualada. Não és igualada na dor e também o não és no poder. Eu tenho em Minhas divinas mãos o teu martírio com todo o teu amor; sou Eu mesmo a colocá-lo como escora firme a sustentar o braço do Meu Eterno Pai, para não cair sobre o mundo culpado a castigá-lo. Podia dizer-te, esposa querida, que ele cai e cai sem remédio, por não virem a mim, seguindo a Minha divina voz. Não quero fazer-te tal afirmação, para não entristecer-te.

― Meu Jesus, meu doce Amor falardes-me assim é dardes-me a certeza do que nos espera; bem sinto eu que nada Vos dou e de nada valem os meus sofrimentos.

― Coragem, coragem, Minha filha, parece que nada Me dás, porque já tudo tenho em Meu poder. Sentes que nada valem os teus sofrimentos, porque, sofrendo Eu, em ti tomo-os como meus; e, para maior sofrimento teu, nada em ti deixo aparecer. Confia em Mim. Todo o teu martírio, em união comigo, forma os selos com os quais selo as almas e as deixo com o sinal da salvação. Confia, vítima amada, se não acudires aos corpos, as almas são sempre de salvação. O que vale a tua dor e o teu amor com o Meu! Coragem, vítima generosa, vítima de dor e amor. Vê, Minha querida, o Mendigo divino a estender para ti o braço, a pedir-te a esmola. A taça, em que a vais deitar, foi feita do ouro do teu martírio. Os espinhos, que a rodeiam, foram feitos das pedras preciosas das tuas virtudes; é a taça das almas, é a taça da salvação. Dá-Me a esmola, dá-Me a esmola. Só uma alma e um coração puro podem combater com Satanás e reparar-Me das maldades e crimes a que ele leva as almas. Como prova do teu amor, da tua generosidade, vou dar-te, em breves dias duas felizes novas que vão ser de alegria para o teu coração e para mais alguns dos que te rodeiam. Se o mundo bem compreendesse as Minhas maravilhas em ti e o valor do teu sofrimento, ter-te-iam suavizado o teu calvário e o daqueles que escolhi para te ajudarem a subi-lo.

― Meu Jesus, meu Jesus, peço-Vos força e amor. Sobre essa taça me coloco, sacrificai-me Jesus, imolai-me como Vos aprouver. Jesus retirou a taça doirada, cercada e adornada de belos espinhos.

― Vou dar-te ainda, Minha filha, a gota do Meu sangue divino; recebe que é vida, a vida do Céu, a vida de que vives. Recebe ara sofreres, recebe que é para viveres e para dares a vida às almas. É o Meu sangue com a tua dor e amor que lhes dás a vida e mais ainda faz com que Eu por muitos seja amado, o que não seria sem ti, Minha esposa querida.

Jesus uniu logo os nossos corações, e, logo que caiu a gota do Seu precioso sangue, desuniu-os e deixou por algum vir do Seu lado aberto para o meu peito fortes chamas de fogo. Com as Suas divinas mãos cerrou a abertura do Seu peito e disse:

― Trabalho em ti como quero, faço do Meu divino coração e do teu o que Me apraz. Vai levar a vida às almas, esta vida que é a verdadeira vida. Vai levar a todos o Meu divino amor, mas mais, muito mais aos que mais te amam, aos que mais de perto te rodeiam. Amar a Minha vítima é amar a Mim; cuidar dela é cuidar de Mim. Coragem! Vai em paz, vai em paz.

― Obrigada, meu Jesus; um eterno obrigado, meu amor! São tantos e tão grandes os meus sofrimentos que mesmo no meio das minhas negras trevas obriga-me a dizer: para ditar tudo o que fica dito, vi aqui só a mão e a força de Jesus com a luz do divino Espírito Santo; sem isto nada teria dito. Ó meu Jesus, ó meu Deus, quanto sofre a mais indigna das Vossas filhas; e só vê nela miséria e nada mais! Dai-me graça, dai-me perdão para as minhas culpas e para as do mundo inteiro.

   

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